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Em 10 minutos de curta, o pianista explora tecnologia e nostalgia em um olhar para um futuro negro que não deixa de honrar o seu passado.

A Torus é um movimento composto por diferentes pessoas que vêm pensando o espírito do tempo e, com ele, as manifestações artísticas e culturais que vêm definindo nosso presente e que também se conectam com nosso passado e nos encaminham para o futuro. Em uma recente publicação, Victor Hugo Barreto trouxe o tema do Afrofuturismo junto à midióloga e estrategista de comunicação Morena Mariah, que é responsável pelo projeto afrofuturo, no qual justamente aborda a temática e suas ramificações.

Como descreve Barreto, “o afrofuturismo permite a possibilidade da experimentação de uma percepção temporal distinta. Uma lente ‘deseurocentralizadora’. Ao propor um deslocamento de perspectiva atravessado pela questão racial, ou seja, ao propor olhar o mundo de um ponto de vista afrocentrado nos proporciona uma lente para um passo até então invisibilizado, para entender as questões do presente e para futuros possíveis.”

Apesar de ser um conceito mais antigo, datado por volta da década de 1990, foi a partir do lançamento do filme que adapta os quadrinhos da série Pantera Negra que o afrofuturismo se tornou uma pauta popular na mídia. Junto ao lançamento, também artistas como Solange e Beyoncé, Janelle Monáe e mesmo Elza Soares promoviam esse novo olhar sobre a cultura africana no âmbito da música. Na literatura brasileira, Fábio Kabral ganhava destaque com seu romance O Caçador Cibernético Da Rua 13 e Xênia França lançava seu icônico clipe Nave. E, nesta semana, no dia 26 de abril, temos o lançamento do curta A Jornada, um projeto afrofuturista que vem sendo incubado pelo pianista Jonathan Ferr desde 2017.

Com presença confirmada no Rock in Rio deste ano, Ferr tem um estilo próprio de combinar sua influência do jazz e do funk com elementos do rock’n’roll e mesmo da música eletrônica. Em A Jornada, o artista desenvolve uma narrativa cinematográfica que traduz muitos dos conceitos do afrofuturismo ao contar uma história que transcende épocas e que se eterniza em arquétipos que fazem referência a elementos da cultura africana e da cultura contemporânea negra. O álbum, intitulado Trilogia do Amor, é resultado de uma busca espiritual do músico, que procura respostas sobre ancestralidade, afeto, amor, energia e conhecimento. Dividido em três partes, A Jornada, O Renascimento e A Revolução, o álbum faz parte também de uma trilogia audiovisual afrofuturista, sendo que cada obra recebe o título de cada capítulo do álbum.

O primeiro filme, A Jornada, passou um ano em festivais de curtas pelo Brasil, pelos quais foi premiado por melhor figurino, além de ter concorrido a melhor trilha sonora com a faixa Luv is the way como pano de fundo para a narrativa. Desde o pôster, que conta com uma belíssima imagem de um casal negro com o corpo coberto por pinturas tribais, porém metálicas, já dá o tom futurista e ao mesmo tempo ancestral da obra.

Assim como no afrofuturismo, também o curta de Ferr tem um toque de ficção científica que também aparecia na identidade do compositor de jazz Sun Ra, considerado um dos pioneiros do afrofuturismo. Segundo Ferr, não só ele, mas também outros artistas já vêm trabalhando nesse processo de construção imaginária do povo negro.

Ferr explica que, em A Jornada, a equipe que contou com quase 20 pessoas (em sua maioria, profissionais negros) buscou encontrar um eixo entre a fantasia e a denúncia, porém sempre preocupando-se em mostrar o corpo negro de forma livre, poética e sensível. “Desde a utilização de alguns arquétipos para contar essa história, a ficção científica está ali presente, especialmente na questão do tempo/espaço da história.”

Isto porque o curta transita em três tempos e em três locais: Reino de Iya em 1538, Em alguma diáspora em 2017 e no Reino de Tundee em 2538. Segundo Ferr, A Jornada busca um eixo entre fantasia e denúncia, mas sempre com a preocupação de o corpo negro aparecer de forma livre, poética e sensível. “Utilizamos alguns arquétipos para contar esta história e a ficção científica está ali presente, especialmente na questão do tempo e espaço da história.” Nesse sentido, o reino de Tundee acaba por funcionar como uma representação da África, um lugar místico de onde todos os negros vieram e para onde também retornarão.

O Reino de Iya faz justamente parte de Tundee, e é ali onde conhecemos os personagens centrais da obra: Ona, que significa “caminho” ou “jornada” em ioruba, e a Rainha do Reino de Eya, que representa espiritualmente a África que chora por aqueles que partem dela, mas que também dá a luz a seus filhos representados por uma cabaça — objeto presente na vida de muitas culturas africanas e que também está presente na gastronomia e no trabalho de diferentes tribos.

Entre essas duas personagens, também transita Alaisan, que em ioruba significa “pessoa doente” e o qual representa na narrativa o lado escuro da personalidade humana. “Existe uma relação com o Iching e o Yin e Yang, os quais ao mesmo tempo que se repelem também se atraem. Assim também é com a nossa sombra”, comenta Ferr. No tempo presente, que é retratado como uma diáspora (termo, aliás, muito importante para entender a questão da identidade africana contemporânea e os preceitos do afrofuturismo), somos apresentados a Aiye, uma princesa que descobre o amor ancestral em Ona. Com vestes em tons terrosos, Aiye representa um equilíbrio e uma variação da Rainha de Eya em um ambiente místico.

Poético e envolvente, o relacionamento amoroso entre Aiye e Ona é representado por coreografias envolventes, porém também conta com a dor e violência que marcam a vivência e a identidade negra contemporânea. Quando Ferr escolhe iniciar A Jornada no ano de 1537, o artista o faz conscientemente ao escolher uma data em que a escravidão do povo negro começa a ser largamente explorada no Brasil e nas Américas. É o momento de ruptura com a mãe África, de uma primeira diáspora que não cessa mesmo no presente representado em 2017. Usar o afrofuturismo como referência estética e artística, na realidade, acaba por se tornar uma ferramenta educacional, filosófica e sociológica, como explica Ferr:

Quando estamos pensando em um futuro negro, num país como o Brasil que mata e encarcera a população negra, estamos falando do âmbito social e criamos pontos imagéticos que ajudam toda população preta a mudar a curva de seus destinos. Isso é uma revolução social que está se erguendo, ainda lento, mas está.” Jonathan Ferr

A opinião dele também encontra paralelo no posicionamento de Morena Mariah quando esta descreve o afrofuturismo como uma visão de mundo que vai além de sua potência política, filosófica, cultural e estética. Como ela argumenta, trata-se de uma maneira de “se enxergar como povo negro e entender o estado das coisas em que a gente está inserido e como elas chegaram até aqui. Ou seja, é conhecer o passado e como ele nos trouxe ao momento em que a gente está.”

O curta A Jornada será lançado nesta sexta-feira, dia 26, através das redes sociais de Jonathan Ferr.

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