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A realidade aumentada (RA) se tornou uma forte pauta novamente após a Apple ter lançado no mês passado o seu novo sistema operacional, incluindo também aplicações em RA que permitem que os usuários possam desenhar no ar, testar móveis virtuais ou mesmo adicionar gifs como novas camadas à visão. Junto a Apple também estão Google, Microsoft, Snap, bem como o Facebook. Em abril deste ano, Mark Zuckerberg fez o anúncio de que as intenções de sua empresa são de transformar câmeras em uma primeira plataforma mainstream de realidade aumentada.

No entanto, na maior parte das vezes em que tratamos de realidade virtual, aumentada ou mesmo realidade mista, pensamos imediatamente em um recurso visual, enquanto que o novo objetivo dos desenvolvedores é criar uma espécie de realidade auditiva aumentada. Hoje, boa parte dos vídeos e simulações em realidade virtual ainda não contam com áudio em 360º, portanto profissionais como sound designers têm pensado em como seria o futuro do som em sua potência imersiva, incluindo combinações com tecnologias como inteligência artificial, sensores e dispositivos vestíveis.

Esse é o caso dos hearables, uma possibilidade que vem sendo vislumbrada desde 2014, quando as pulseiras inteligentes começaram a ganhar fama antes de os smart watches conquistarem o mercado. Foi o designer de produtos Nick Hunn que iniciou essa especulação como parte de sua campanha por dispositivos wireless e que façam com que telas se tornem dispensáveis enquanto a tecnologia passa a ser vestível ou mesmo parte de nossos corpos.

Fones de ouvido inteligentes como o Here One da Doppler, os IQBuds da Nuheara e os recentemente anunciados Pixel Buds do Google são alguns dos exemplos que demonstram desenvolvimentos avançados na área dos dispositivos auditivos. O objetivo agora, portanto, é conseguir fazer com que esses mesmos dispositivos sejam capazes de fornecer uma experiência de “trilha sonora” da vida de seus usuários, isto é, que realmente sejam capazes de possibilitar uma experiência imersiva e seamless.

O episódio The Entire History of You, da série Black Mirror, foca especialmente na gravação de memórias baseada na visualidade. Os hearables, por outro lado, teriam como principal objetivo as memórias auditivas.

Isto é, mais do que os fones de ouvido sem fio da Apple, também vislumbrados no filme Her de Spike Jonze, esses dispositivos auditivos seriam capazes de cancelar o som exterior ou aumentar o volume de ruídos específicos, selecionados pelo usuário em uma interação com aplicativos para smartphones. Especula-se até mesmo que seria possível criar um “live mix” do mundo ao nosso redor, combinando recursos de inteligência artificial que poderiam, por exemplo, editar ruídos de acordo com uma escala musical escolhida, bem como permitir que plataformas de streaming musical, como o Spotify, possam ser vinculadas à análise de respostas corpóreas do usuário, assim sugerindo a trilha sonora perfeita para que você não perca o ânimo enquanto treina ou para animá-lo em uma manhã de segunda-feira pós-feriado prolongado.

Muitos desses recursos já podem ser encontrados em alguns dos fones disponíveis atualmente, mas assim como as lentes do episódio The Entire History of You, de Black Mirror, esses dispositivos ainda não são capazes de gravar memórias, neste caso, auditivas. Isso, no entanto, pode vir a ser um novo adendo aos aparelhos que permitirão que seus usuários gravem sons que desejem revisitar mais tarde, seja para curtir a lembrança ou mesmo para usá-los como samples a serem remixados em uma trilha sonora experimental.

Aliás, tratando-se de tecnologia e trilha sonora, vale a pena o comentário sobre como Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch trabalharam na composição de um soundscape tão obscuro e ruidoso quanto o próprio cenário criado para Blade Runner 2049, de Dennis Villeneuve.

Ao escolher Zimmer para compôr a trilha sonora da continuação do filme dirigido por Ridley Scott, Villeneuve tratou a participação do compositor alemão como uma espécie de experiência em laboratório: “O filme precisava de algo diferente. Eu precisava de algo próximo do Vangelis.” O resultado foi, por fim, o que o editor Michael Roffman escreveu em sua resenhacomo sendo “uma total evolução do que Vangelis fez lá atrás, em 1982. É mais alta, é mais melancólica, é mais pesada, é muito mais expansiva, todas as qualidades que alguém daria para a sequência impressionante de Villeneuve.”

Ryan Gosling em Blade Runner 2049

Não há exatamente melodia, mas ruídos, algo como uma versão menos agressiva, mas ainda assim estranha, se comparada aos experimentos da música noise dos anos 80, seja ela em sua vertente ocidental e vinculada à música industrial, ou ainda como o gênero se desenvolveu no oriente a partir da vertente japanoise. Bandas como Nurse with Wound, por exemplo, são capazes de fornecer o mesmo estranhamento ambiente que Zimmer e Wallfisch trouxeram para Blade Runner com um toque dos sintentizadores de Vangelis, constantemente homenageados pela nova onda de artistas da música eletrônica retrowave.

Com novas possibilidades de se remixar os sons da cidade, talvez tenhamos uma nova percepção e apreciação de ruídos outrora reservados a experimentos mais avant garde entre músicos. Por outro lado, fones de ouvido inteligentes e capazes de nos fornecer informações sonoras em tempo-real podem funcionar tanto pareados com o GPS, portanto oferecendo dicas do restaurante mais próximo, ou então tornando-se um forte aliado de experiências gamificadas. Isto é, já imaginou se em vez de ficar com o celular ligado na mão, andando para os lados e esperando um pokémon aparecer, você pudesse escutar quando um novo pokémon surge nas proximidades enquanto ouve sua música ou escuta as notícias?

Essas foram especulações trazidas por Jesse Damiani em seu recente artigo para o site Billboard, mas não deixam de ser uma tecnologia facilmente assimilável ao universo nowpunk pessimista de Black Mirror, assim como se esses hearables pudessem, por exemplo, ser contaminados por mensagens publicitárias que pululam nos ouvidos assim como os antigos pop-ups e os tão atuais banners que tanto queremos ignorar com serviços de adblock.


Robin Wright em O Congresso Futurista

Em Blade Runner 2049, Villeneuve apostou em uma cidade tão poluída por publicidade holográfica, assim como no original dos anos 80, mas também não deixou de se apropriar do som da cidade para ocupá-lo com mais e mais mensagens invasivas, gritos e ofensas em um cortiço tão típico e tão vívido no imaginário cyberpunk. Assim que K (Ryan Gosling) entra em seu apartamento, contudo, o som do mundo exterior dá trégua para um silêncio que ele preenche com música antiga. A diferença é que, com os hearables, poderemos encontrar o silêncio mesmo em meio ao trânsito e cancelar as buzinas dos carros com a nossa música preferida. Ou será que estaríamos tão imersos em novas camadas tão dissolvidas à nossa percepção sensorial que povoaríamos cidades silenciosas, assim como no mundo não-animado de O Congresso Futurista?

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