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Em 1973, a escritora de ficção científica e fantasia Ursula Le Guin publicou um conto que traz em pauta a noção de felicidade e o alto preço pago por ela em detrimento de outras vidas humanas.

No mesmo dia que comemorei meu aniversário de 28 anos este ano, um amigo de longa data trouxe para conversa a menção ao conto The Ones Who Walk Away from Omelas de Ursula K. Le Guin, autora de ficção científica e fantasia que faleceu em janeiro deste ano.

Esse meu amigo, que é doutorando em filosofia e ministra aulas de filosofia combinada às narrativas de ficção científica, apresentou esse texto aos seus alunos de modo a discutir questões morais que, aliás, já haviam sido endereçadas anteriormente por Dostoevsky, em Os Irmãos Karamazov, e também por William James em The Moral Philosopher and the Moral Life, apesar de Le Guin não ter associado diretamente essas referências ao escrever essa história publicada em 1973.

Em linhas gerais, o conto apresenta uma sociedade em que todos são felizes, saudáveis, produzem artes belíssimas, ciência e tecnologia de ponta. No entanto, para que Omelas seja assim, é necessário manter uma criança trancafiada em um porão escuro, nua e mal nutrida. E não é como se isso fosse um segredo mantido por algumas pessoas: na realidade, todos os moradores de Omelas são apresentados às condições dessa criança quando têm oito ou doze anos, idade suficiente para entender a situação. Porém, como descreve o narrador, não é incomum ter adultos visitando o calabouço com certa frequência.

Quando apresentadas à situação da criança encarcerada, os adolescentes ficam furiosos, tristes e inconformados, mesmo diante de todas as explicações dadas para justificar tal procedimento. Ao voltarem para casa, esses adolescentes, no entanto, passam a refletir sobre como poderiam mudar a situação dessa criança prisioneira e, com o tempo, entendem que se a criança for libertada, então toda a felicidade e prosperidade de Omelas também desaparecerá e, com isso, a criança não terá muito o que desfrutar fora de seu cárcere. Além do mais, com o tempo, esses adolescentes e adultos passam a acreditar que, mesmo que se essa criança fosse libertada, ela nunca mais seria capaz de se readaptar ao mundo devido ao trauma de sua prisão: mesmo nutrida e confortável, os danos psicológicos jamais permitiriam que a criança tivesse uma vida verdadeiramente plena.

A discussão entre meus amigos se focou no relativismo do que é certo e do que é errado, isto é, se devemos aceitar certos ritos e práticas culturais como certos porque fazem parte do funcionamento de uma sociedade ou se devemos julgá-los incorretos por acabarem causando algum dano ou irem contra “princípios universais”. A isso se inscreve tanto a prática milenar da clitoridectomia realizada por comunidades na África, Oriente Médio e sudeste asiático, até regras religiosas que afetam a maneira como os fiéis se vestem, por exemplo. Entre meus amigos ficou o consenso de que devemos, sim, julgar essas práticas como certas ou erradas segundo algum princípio universal, mas o motivo pelo qual eu trago esse conto para o texto da semana é para chamar a atenção ao preço que pagamos pela nossa felicidade em detrimento do outro e o quanto conseguimos lidar com o conhecimento dessa questão.

Isto é, até que ponto nos afetamos pelo conhecimento das sweatshops? Até que ponto mudamos nossa forma de consumir produtos de uma determinada marca depois que descobrimos as condições precárias oferecidas aos seus trabalhadores? Até que ponto deixamos de comer carne ao assistirmos a um documentário sobre os maus tratos animais e maneira como eles são abatidos?

No conto de Le Guin, a autora termina comentando que, por vezes, há algumas pessoas que, depois de verem a condição da criança, passam dias em silêncio e, por fim, saem à noite vagando pelas ruas vazias de Omelas, iluminados apenas pelas luzes das janelas das casas, onde famílias desfrutam de seu conforto e jantar. Eles partem de Omelas, mas não se sabe muito bem o que há para além daquele lugar. Não se sabe para onde vão e o que procuram, mas tudo indica que aqueles que deixam Omelas sabem muito bem para onde vão e as dificuldades que enfrentarão: acima de tudo, eles já não querem mais compactuar com aquela lógica.

É nesse sentido que a militância e o posicionamento também andam. Deixar de comprar roupas numa loja de fast fashion, presente em todos os shoppings e com preços indubitavelmente mais baixos, é complicado. Pesquisar alternativas, pagar o preço por produtos mais sustentáveis, pensar muito antes de comprar qualquer coisa e ter consciência de todo o lixo que se produz: tudo isso demanda muito, e é por esse motivo que muitos acabam preferindo continuar em Omelas, desfrutando de seu guarda-roupa estiloso, de seu churrasco incrível e do seu smartphone novinho. Ainda, por questões de saúde mental, manter-se estável como indivíduo torna-se uma prioridade muito maior (e talvez até mais difícil) do que debruçar-se sobre as questões universais.

Por outro lado, nosso discurso também tem sido muito orientado à culpabilização do consumidor, quando, na verdade, não foi ele quem pediu para que a lógica de produção se tornasse aquilo que é hoje. Como aprendemos com a pesquisa da Box1824 sobre o Lowsumerism, com a revolução industrial e o desenvolvimento da tecnologia, produzir bens de consumo se tornou mais barato e mais eficiente, mas para que esses insumos fossem consumidos, as pessoas precisaram ser estimuladas: pela publicidade, pela maior facilidade de crédito, por mensagens aspiracionais em que felicidade = consumo. Certos hábitos e posses só passaram a ser algo desejável hoje por conta do discurso atrás deles, não por serem verdadeiramente capazes de proporcionar mais felicidade ou serem, em última instância, úteis e eficazes.

Portanto, mais do que deixar Omelas, precisamos reavaliar o que é realmente felicidade e se ela vale o custo pago por outras vidas, humanas ou não. E é preciso questionar aqueles que fundaram essa lógica: no conto de Le Guin, não temos acesso à explicação pela qual crianças devem ser trancafiadas para que todos sejam felizes, porém, no nosso mundo, é muito possível de se escavar os motivos pelos quais possuímos certos hábitos destrutivos — por mais absurdo e kafkiano que isso possa vir a ser.

E quando nos perguntamos se há espaço para todos nesse futuro imaginário de abundância, carros voadores e androides realistas, também questionamos: será que é esse o futuro que precisamos ou que queremos? Será que todos nós realmente sonhamos com um futuro em que temos acesso a um pacote turístico para Marte ou será que ficaríamos mais felizes se, primeiro, conseguíssemos oferecer saneamento básico para todos os brasileiros?

Ao redefinirmos nossas prioridades e agirmos sistematicamente, talvez consigamos sair de Omelas ou encontrar felicidade em um outro contexto que não aquele proporcionado pelo sofrimento alheio e por ideais postiços que nada têm a ver com satisfação de nossos desejos e necessidades, mas sim criações postiças que sustentam uma lógica de consumo sem sentido e finalidade.

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