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Anteriormente um experimento quase de biohacking nos anos 60, as cuddle parties ou festas para troca de carinhos se tornaram um produto comercializado em grandes centros metropolitanos caracterizados pela solidão de seus moradores e trabalhadores.

Em São Francisco, há uma prática não tão nova assim, mas que chamou a atenção depois de um artigo publicado por Katie Canales para o Business Insider, na semana passada. Em português, “cuddle party” poderia ser traduzida como “festa do abraço”, mas tem muito mais a ver com carinho e contato físico seguido de consentimento do que necessariamente o ato de abraçar. O curioso é que esse tipo de prática tenha se consolidado em uma cidade com uma longa trajetória de rompimento de normas sociais e de práticas inovativas, sejam elas no aspecto tecnológico ou sexual, por exemplo.

Mas no caso das cuddle parties, não se trata de um evento de finalidade sexual. Canales inicia seu relato descrevendo uma cena em que diferentes pessoas deitam juntas, corpos sobrepostos, abraçando-se apesar de serem desconhecidos. Contudo, nenhum contato físico é feito sem antes pedir ao próximo. É preciso pedir autorização para, por exemplo, mexer nos cabelos, coçar as costas ou tocar o rosto do outro. Agora, por que essas pessoas estão indo a cuddle parties? Bem, o motivo é uma busca por maior contato físico e humano, em outras palavras, uma terapia para a solidão.

Como descreve Canales, a primeira cuddle party moderna surgiu em 2004 como um pequeno evento organizado em um apartamento em Nova Iorque. Dezesseis anos depois, vemos que há até mesmo uma empresa chamada Cuddle Party para a qual trabalham facilitadores como o educador sexual, consultor e abraçador profissional Dr. Yoni Alkan. Mas esse tipo de encontro não é típico dos Estados Unidos: há também cuddle parties na Irlanda e na Suécia, por exemplo.

Esse tipo de busca por um contato mais íntimo, porém não sexual, com alguém desconhecido parece sintomático para um momento como o atual, no qual nos isolamos em grandes cidades e em ritmos de trabalho que são, em si, alienantes. Mas é essa mesma indústria e essa mesma lógica capitalista que também fomenta o surgimento de abraçadores profissionais certificados por programas como o Cuddlist, com o qual eles ganham respaldo para cobrar algo entre US$60 e US$80 por sessões de carinho e abraços. Em Portland, Oregon e Los Angeles há até mesmo lojas que oferecem esse tipo de serviço que, no final das contas, funciona como um estimulante para a produção de oxitocina, um hormônio que, em parte, age como um agente de conexão para humanos e que também funciona como um “antídoto para sentimentos depressivos”.

Quando essa química da felicidade é disparada no corpo humano através do contato físico ou mesmo entre outros tipos de atividade, combatemos a ação do cortisol que, entre outras finalidades, ficou conhecido como o “hormônio do estresse”. E é por conta dele que as pessoas decidem se reunir com mais 30 desconhecidos para abraçar e trocar carinhos em busca de uma cura para o estresse, a ansiedade e a loucura da rotina moderna.

“Estamos vivendo cada vez mais em um ritmo acelerado com pouco equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal — especialmente na lógica extrema da indústria tech do Vale do Silício. Nos casamos com nossos dispositivos eletrônicos e, de acordo com uma pesquisa realizada em 2017 pelo Pew Research Center, estamos esperando mais tempo para encontrar parceiros ou começar uma família, caso assim desejemos — uma decisão válida, mas que custa uma falta de intimidade física com uma pessoa significativa. Uma pesquisa de 2019 realizada pela US News and World elencou São Francisco como um dos melhores lugares para solteiros viverem no país, indicando que 52% da população não possui um parceiro.

‘Nós vivemos nessas pequenas caixas e estamos desconectados, nossas compras podem ser entregues — e tudo pode ser entregue — quando pressionamos um botão’, afirma Dr. O. Christina Nelsen, uma sexóloga e psicóloga, CEO e fundadora dos Centros de Intimidade e Terapia Sexual de São Francisco. ‘Então há muitas pessoas que não têm essa conexão diária através do toque ou mesmo na troca de olhares.’”

Ao mesmo tempo em que se sabe que o isolamento pode ser prejudicial não apenas à saúde mental, mas também física de um indivíduo, por outro lado, São Francisco se tornou um polo daquilo que Andrew Chamings da Vice chama de “intimidade organizada” conforme se popularizam não apenas cuddle parties, mas também festas de contato visual, sessões de speed dating para solteiros custando entre 35 e 60 dólares, bem como festas, de fato, focadas em sexo.

Curiosamente, porém, Canales lembra que, nos anos 60, cuddle parties eram vistas mais como um experimento de quase biohacking no qual hippies buscavam superar normas sexuais ou mesmo de relacionamento entre as pessoas. No entanto, esse ressurgimento das cuddle parties atualmente possui um outro objetivo ou até mesmo sentido para os participantes e organizadores. Para psicólogos e sexólogos como Nelsen, por exemplo, isso pode ser, na verdade, bastante benéfico, uma vez que temos, biologicamente, essa necessidade de contato físico e intimidade, porém há algo de estranho quando você precisa pagar 35 dólares para isso — em especial para nós, latinos, que temos outra lógica de contato físico e de intimidade que pode ser, aliás, um problema para expatriados.

Isso, no entanto, não faz com que as cuddle parties se tornem inviáveis. Na realidade, Canales conta que os ingressos se esgotam mesmo um mês antes do dia da sessão. Na visão da jornalista, porém, apesar de as cuddle parties proporcionarem um certo tipo de conforto e carinho, intimidade não é conquistada dessa forma, mas necessita outras camadas, como por exemplo ter verdadeiros sentimentos e conexões com a pessoa com a qual se troca carícias. “Foi algo difícil de engolir que todos seríamos magicamente curados de nossa solidão ali. Pareceu mais como colocar um band-aid em uma ferida feita por um tiro”, ela descreve.

Contudo, de acordo com os especialistas entrevistados por Canales, trata-se de prática: quanto mais você vai a essas cuddle parties, mais fica comum e mais você aproveita de seus benefícios. Em outras palavras, se você tem 40 dólares para gastar em várias sessões até conseguir ficar chapado de oxitocina sem realmente ou necessariamente se relacionar com alguém e assim criar um verdadeiro laço durável, então vá em frente.

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