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Bioengenheiros estão trabalhando na confecção de um material impresso em 3D que substitui tecidos tipicamente lesionados por atletas, mas que também afetam a população geral. Apesar de ser uma medida regenerativa, por que esta não poderia ser uma estratégia de amplificação do corpo humano?

O ciborguismo tem várias facetas e diferentes interpretações. Há autores que defendam que somos ciborgues simplesmente pelo fato de usarmos óculos ou termos o hábito constante de ouvir música nos fones e ainda o próprio fato de estarmos nos estendendo através das mídias, como o celular ou o computador.

Por outro lado, autores como Donna Haraway priorizam a questão da modificação corporal e a emancipação na questão de gênero, entendendo, portanto, que somos ciborgues tanto pelo fato de usar a alimentação e exercícios físicos para moldarem nosso corpo quanto quando buscamos a tecnologia como uma forma de expressar nossa identidade através, por exemplo, de cirurgias plásticas.

Ainda, também há o movimento dos biohackers que exploram os limites e as possibilidades de inserção de novos equipamentos e substâncias que possam modificar ou amplificar nossas capacidades humanas, enquanto que, por último mas não por fim, podemos também mencionar o uso de membros prostéticos por aqueles que possuem alguma deficiência física.

Nas Paralimpíadas do Rio de Janeiro em 2016, assistimos não apenas à competição de atletas com próteses, mas também a performance da atleta e modelo Amy Purdy com um robô. Contudo, o que também sabemos é que atletas estão constantemente expostos a acidentes e à possibilidade de causar algum dano ao seu corpo devido à constante exposição e esforço praticado em treinos e em competições.

Por conta disso, antes mesmo de se pensar na possibilidade de substituir membros por completo com próteses que provam ser ainda mais eficientes do que suas contrapartes orgânicas, cientistas especializados em biotecnologia vêm explorando (e com sucesso) a impressão 3D de tecidos que podem ser, um dia, usados por médicos para que sirvam de implante em pacientes que tenham lesionado seus joelhos, pulsos ou cotovelos, por exemplo. É esse tipo de lesão que pode ser responsável por encerrar a carreira de atletas, já que são essas juntas e partes do corpo que são responsáveis por movimentos essenciais a práticas esportivas.

Para Sean Bittner, pesquisador da Rice University, “essa será uma poderosa ferramenta para ajudar as pessoas com lesões esportivas comuns”, porém o impacto dessa inovação pode ir ainda além como defendeu o cientista em um estudo publicado na Acta Biomaterialia. A ideia é tornar possível a replicação do tecido osteocondral, o qual é encontrado no final de ossos compridos. O desafio encontrado pelos cientistas, no entanto, está na inconsistência desse material, já que ele pode transicionar de cartilagem para osso, daí sendo mais difícil de replicar em laboratório. No entanto, um polímero que combina cartilagem e cerâmica tem se mostrado promissor nessa empreitada.

Para tornar o material melhor recebido pelo corpo, os cientistas têm incluído poros para que as células e os vasos sanguíneos do paciente possam se infiltrar. Essa estratégia visa tornar mais fácil a mescla entre a biologia natural do paciente e o implante, assim tornando a recuperação mais assertiva, porém ainda um primeiro passo antes de finalmente conquistar um implante que seja criado para se encaixar perfeitamente nas especificidades do paciente.

Apesar de esses tipos de lesão serem comuns entre atletas, Bittner afirma que, no entanto, elas não se reservam apenas às pessoas que possuem uma alta frequência e intensidade na prática esportiva: qualquer pessoa pode sofrer uma lesão no joelho, cotovelo ou pulso e esses indivíduos também serão considerados na hora de confeccionar implantes customizados para cada paciente. A diferença está na desproporcionalidade com a qual atletas acabam expostos a esse tipo de lesão, daí o maior foco dos cientistas. “Nesse contexto, o que fizemos aqui é impactante e pode levar a uma nova era de soluções de medicina regenerativa”, afirma Antonio Mikos, o biocientista responsável por conduzir o experimento de Sean Bittner.

O que se observa, portanto, é um foco no público que está principalmente exposto e/ou já foi vítima de algum incidente que tenha provocado a lesão do corpo para que então possa se tratar de uma solução regenerativa e não de aprimoramento. Ainda que observemos os avanços na criação de tecnologias e soluções médicas, é do ponto de vista ético que precisamos avançar ao nos perguntar se essas mesmas técnicas podem ser usadas não como uma forma de restaurar o corpo danificado, mas sim aprimorá-lo e até que ponto isso seria considerado aceitável pela sociedade e pelos governos.

Enquanto o Vaticano já está discutindo as possibilidades do transhumanismo em conferências reunindo roboticistas, engenheiros e religiosos, também outros países vêm considerando estratégias de como lidar com esse futuro de pessoas híbridas, ciborgues e transhumanos que poderiam viver até mil anos e o que isso implicaria desde questões relacionadas à previdência até os sistemas de saúde e a possibilidade de uma superpopulação.

O que ocorre, no entanto, no âmbito do esporte, é a discussão em torno do doping e da descompensação de se colocar um paratleta competindo com um atleta regular: se, por algum momento, pensamos que o paratleta poderia estar defasado por conta de suas limitações físicas, o que vemos no horizonte futuro é que, na verdade, o inverso se concretiza com o desenvolvimento de próteses mais eficientes. Por enquanto, porém, o que vemos são discussões sobre atletas transgêneros (como foi o caso da jogadora de vôlei Tifany) ou ainda de competidores de esportes como o Muay Thai que acabam achando brechas ao, por exemplo, usar placas de titânio na recuperação de ossos, mas que acabam interferindo consideravelmente na performance final. O mesmo vale para o dia a dia: até que ponto a convivência com esses pós-humanos será caracterizada por equidade diante daqueles que não passaram por esses novos procedimentos?

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