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Historiador da cultura e da mídia Siva Vaidhyanathan acredita que deixar o Facebook em protesto ao escândalo da Cambridge Analytica pode ser uma decisão ruim.

E o grande assunto da semana passada não poderia ter sido outro: o caso, então referido como escândalo, da consultoria Cambridge Analytica que manipulou a informação de mais de 50 milhões de usuários do Facebook. Mais do que nunca e ainda mais numerosamente, ficamos cientes da lógica do “capitalismo de vigilância” praticado pelo Facebook, empresa que não deveria nos tratar como usuários, mas sim como colaboradores, já que produzimos dados que serão, por fim, mercantilizados para finalidades como a campanha de 2016 do presidente americano Donald Trump, para a qual a consultoria Cambridge Analytica trabalhou.

Conforme descrito, a empresa obteve as informações já em 2014 e as usou para construir uma aplicação destinada a prever quais seriam as decisões dos eleitores e, assim, gerar influência sobre elas. Diante dessa revelação, que gerou uma perda de quase US$50 bilhões no valor de mercado do Facebook, foi a primeira vez que Mark Zuckerberg resolveu se manifestar em seus perfis pessoais, dizendo que a empresa estará investigando a Cambridge Analytica, bem como também trabalhará em novas medidas de segurança para que evitar que empresas como esta usem os dados dos usuários.

Mesmo assim, isso gerou um movimento que ganhou referência na hashtag #deleteFacebook, com adesões de pessoas como Elon Musk, que deletou o perfil da Tesla e da SpaceX da rede social. Mas será que simplesmente abandonar a rede social é a melhor opção? Foi o que Siva Vaidhyanathan questionou em um texto de opinião para o New York Times. Mas mais do que levar em consideração o caso do escândalo da Cambridge, o autor, que é especializado em história da cultura e da mídia, trouxe à tona a questão de que muitas pessoas se sentem atrapalhadas pela rede social, especialmente acusando-a de impedi-las de se concentrar em seus projetos e trabalhos — o que é tudo bem, mas Siva diz que, mesmo que se decida deletar o próprio perfil, é melhor não acreditar que isso realmente fará diferença para o Facebook ou para o mundo.

Mesmo se as dezenas de milhares de americanos saíssem do Facebook amanhã, a empresa pouco sentiria isso. O Facebook tem mais de 2.1 bilhões de usuários ao redor do mundo. Seu crescimento foi impulsionado nos Estados Unidos, mas o serviço está ganhando milhões de usuários fora da América do Norte toda semana. Como muitas empresas globais, o Facebook se foca em mercados como o indiano, o egípcio, indonésio, filipino, brasileiro e mexicano. No ritmo atual de crescimento, a rede pode alcançar o marco de três bilhões de usuários até 2020.

É nesses países que Siva argumenta que as pessoas estão tirando vantagem, por exemplo, de estabelecer conexão com outras pessoas quando se há outros poucos serviços locais que fornecem a mesma função. “Nesse mundo em desenvolvimento, o Facebook é também a única fonte de informações que importa. Isso deveria nos horrorizar. Mas não é um problema que será resolvido pelos americanos indignados que está deixando a rede”, escreve o autor.

No Brasil, o uso de redes sociais para encontrar notícias chegou a atingir o marco de 66% dos leitores online em 2017, sendo que o Facebook é o expoente com 57% dos entrevistados na pesquisa realizada pelo G1 e o Whatsapp chega também para rivalizar nessas estatísticas — no entanto, também essa plataforma de mensagens é propriedade do Facebook. E, fora isso, como aponta Siva, não é como se as outras plataformas de redes sociais estivessem isentas de outros escândalos, como os discursos de ódio no YouTube ou a presença russa no Twitter. “Todas as grandes firmas de telecomunicações, assim como o Google e o Twitter, se apoiam em sistemas de vigilância similares aos que o Facebook usa para gerar anúncios direcionados. O Facebook é maior e melhor em tudo isso comparado aos outros, mas esses problemas não são particulares”, argumenta Siva.

Por isso, o autor acredita que a esperança de mudança está muito mais no poder dos cidadãos do que nas mudanças das plataformas. “Nós devemos cobrar que legisladores e reguladores se tornem mais firmes. Eles devem ir atrás do Facebook por questões de calúnia”, escreve. Siva também defende que o governo, ou mais especificamente o departamento de justiça, considere retirar o Whatsapp, Instagram e Messenger do Facebook, assim como fez com a AT&T em 1982. “Esse rompimento liberou a criatividade, melhorou os serviços de telefonia e diminuiu os preços. E também limitou o poder político da AT&T”, ele explica.

Na Europa, já há esforços em proteger os dados de seus usuários a partir do projeto de Regulação de Proteção de Dados, que será implementado em maio deste ano e que pretende certificar que os usuários estão cientes e que estão consentindo o acesso aos seus dados ao usar determinado produto.

No entanto, mesmo esses projetos regulatórios têm suas limitações. Siva escreve que, enquanto o Facebook se mantiver grande e rico como atualmente é, seu algoritmo irá determinar e distorcer muito do que lemos e assistimos. “Nossa agenda a longo prazo deve ser fortalecer instituições que fomentam a liberação democrática e a busca racional pelo conhecimento. Estas incluem organizações científica, universidades, bibliotecas, museus, jornais e organizações civis. Todas elas foram enfraquecidas nos últimos anos conforme nossos recursos e atenções se mudaram para os dispositivos viciantes em nossas mãos.”

Desse modo, Siva acredita que é a partir da cobrança e da resistência que se poderá alcançar uma mudança nesse cenário e não a simples saída do Facebook: “Se nós agirmos como agentes desconectados e indignados, nós entregamos o nosso único poder: o poder de pensar e agir coletivamente. Nós podemos até mesmo usar o Facebook para criar campanhas para conquistar o Facebook. Esta é, afinal, uma ferramenta poderosa para a motivação, mesmo que seja uma forma terrível para a deliberação.”

Por fim, Siva conclui que, tudo bem, se sair do Facebook te deixa mais calmo e produtivo, então vá em frente. Por outro lado, o autor ressalta que isso pode ser só um adiamento e transferência do problema para quem tem menos oportunidade de proteger sua privacidade e dignidade, aqueles que estão mais vulneráveis à democracia. “Se as pessoas que mais se importam com privacidade, confiança e o discurso civil evacuarem do Facebook em desdém, a plataforma inteira se torna menos informada e diversa. A desativação é o oposto da ação.

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