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Mais do que nunca, qualidades como a maturidade e inteligência emocional serão procuradas pelo mundo do trabalho frente aos limites da tecnologia na hora de tomar decisões críticas e ponderar eticamente processos e conteúdos. O futuro é a hora e a vez da população 60+.

Nada mais sintomático do que a chegada da primeira Feira de Negócios e Fórum de Tendências sobre Longevidade acontecer em um momento no qual o Brasil se depara com um cenário no qual sua população passa por um acelerado envelhecimento e que esses consumidores, com mais de 50 anos de idade, possuem uma porcentagem de 70% de indivíduos com independência financeira capaz de movimentar todo o mercado brasileiro ao fazerem sozinhos suas decisões de compra.

Mais do que isso, essa população está cada vez mais ativa, viajando com frequência, exercitando-se regularmente e buscando mais informações sobre saúde física e mental frente às inovações tecnológicas que perpassam por todas as gerações. Acima de tudo, também, o que está ditando o momento em que vivemos não é a noção de uma geração acima da outra, mas sim a convivência entre indivíduos de diferentes idades e experiências, então somando saberes em vez de pegarmos, mais uma vez, a onda do hype como foi há alguns anos com a ideia do Millennial como o portador de uma nova era da economia e do mundo do trabalho.

Contudo, quando pensamos nos pólos de inovação ao redor do mundo e, em especial, o Vale do Silício nos Estados Unidos, o que descobrimos é que mesmo que nomes fortes como Mark Zuckerberg tenham conquistado sucesso econômico na faixa dos 30 anos, ainda assim outros grandes líderes das empresas de tecnologia americana fazem parte da população 50+ como é o caso de Jeff Bezos ou ainda Bill Gates. Apesar disso, a grande tendência na área da saúde (e que conta com pesados investimentos como o projeto Calico da Google) é a tentativa de “curar” o envelhecimento e, em última instância, estender a vida ao infinito como defende o gerontologista britânico Aubrey De Grey — o qual, aliás, acredita que as pessoas vivas hoje já serão capazes de viver até os 150 anos, se assim desejarem.

Através de tratamentos genéticos, diferentes empresas como a BioViva de Elizabeth Parrish, estão se dedicando na possibilidade de reverter os danos causados ao metabolismo de um indivíduo devido às doenças adquiridas ao longo de sua vida ou a própria degeneração que ocorre naturalmente junto ao envelhecimento como formas de desacelerar o rumo à morte. No entanto, a pergunta que fica é: será que a grande conquista estará na possibilidade de permitir que as pessoas escolham viver o quão longamente desejarem ou estaremos apenas reforçando um dos preconceitos hoje já combatidos pela ONU, o idadismo?

No âmbito do feminismo, autoras como Naomi Wolff já discutiu em seu livro “O Mito da Beleza”, publicado nos anos 90, a questão da rigidez e da austeridade pela beleza feminina que não perpassa apenas pela ideia do corpo esguio como nas revistas de moda, mas também a proibição à mulher de envelhecer e de, então, deixar de ser bela. Ao mesmo tempo que a indústria da beleza lucra com remédios e suplementos emagrecedores, ela também lucra com seus procedimentos cirúrgicos e cosméticos anti-envelhecimento ou anti-aging. Mas como diz o próprio nome, trata-se de uma solução cosmética. Até que ponto o retardo do aparecimento das rugas no rosto de uma pessoa realmente reflete a sua condição de saúde física e mental? Até que ponto intervenções cirúrgicas e tratamentos anti-envelhecimento são realmente em busca de uma vida mais plena e saudável ou de uma luta pela obtenção de uma dita juventude eterna que se calca em estereótipos da mídia em vez do bem estar e do equilíbrio individual?

É nesse sentido que diferentes vozes estão fazendo o convite ao debate e à reflexão sobre o elitismo do Vale do Silício e das big techs ao buscarem soluções de imortalidade ou até mesmo de fuga para outros planetas quando estas soluções, a princípio, só seriam viáveis para uma elite capaz de pagar por esses procedimentos e serviços. Assim como retratado em obras de ficção científica distópicas com o longa “Elisium” de Neil Blomkamp, poderíamos viver um apartheid sócio-econômico ainda maior em um futuro no qual nossas disparidades não são focadas apenas no quanto ganhamos, mas na possibilidade de que alguns podem viver para sempre e outros não. A morte, portanto, poderá se tornar um fator de distinção sócio-econômica ainda maior do que hoje já é quando consideramos que a vida média de um indivíduo pertencente a um grupo minorizado, como as pessoas trans e negras, por exemplo, tem uma expectativa de vida muito menor do que um homem branco de classe média no Brasil devido não apenas ao seu poder aquisitivo, mas também devido à disposição da sociedade e a violência contra essas pessoas.

Portanto, quando tratamos desse viés da indústria tecnológica, falamos não apenas de um movimento elitista e de exclusão, mas também de uma materialização de impulsos religiosos que podem ser ainda mais aprofundados se estudarmos movimentos filosóficos como o transhumanismo ou o que o historiador Yuval Noah Harari chama de dataísmo. Nas entrelinhas deste cenário, o que podemos ver é, talvez, uma versão mais sofisticada e diluída do idadismo, algo que tem sido agenda de combate também de movimentos nacionais como é o caso do Lab60+.

Afinal, como defendeu Rosemary Lane, representante da ONU durante a conferência em celebração ao Dia Internacional do Idoso, em 2016, “posicionar-se contra o idadismo é importante porque tais ideias erradas sobre seniores, sobre a maturidade e sobre o envelhecimento moldam como pessoas mais velhas são percebidas e tratadas pela sociedade, e isso prejudica sua inclusão social, econômica e política, bem como seu aproveitamento dos direitos humanos.” E, além disso, elas são calcadas em preconceitos e estereótipos que não condizem com a realidade e com as demandas do futuro.

Durante minha participação na Feira da Longevidade, trouxe em pauta a questão sobre haver espaço para a população sênior em um futuro possivelmente povoado por jovens e máquinas. E, sim. Na realidade, precisaremos muito mais das qualidades inerentes à população sênior do que da população jovem no que diz respeito ao que as máquinas não conseguirão fazer. Hoje já poderíamos ter quase 45% dos atuais postos de trabalhos automatizados, o que significa que cada vez mais tarefas e empregos poderão ser substituídos por robôs e inteligência artificiais no futuro. Porém, estas não serão (pelo menos ainda) capazes de ter um pensamento crítico e criativo na tomada de decisões e reflexões. E é nesse sentido que a população sênior se destaca em sua potência nos quesitos de maturidade e inteligência emocional.

De acordo com uma pesquisa feita pela Dubai Knowledge Village em 2009, 58% dos profissionais mais bem sucedidos mapeados tinham como principal motivo de seu sucesso a inteligência emocional. Do mesmo modo, uma pesquisa feita na Universidade de Berkeley apontou que, durante nosso processo de envelhecimento, apesar de possíveis problemas de saúde física e mental, ainda assim estamos “biologicamente programados” para atingir nosso pico de inteligência emocional por volta da idade dos 60 anos.

Sendo assim, em um futuro supostamente dominado por jovens inexperientes e que biologicamente ainda não estão preparados para situações de alto estresse e pressão, é a população sênior que se destaca com uma visão de futuro calcada na experiência e na maturidade, resgatando então os valores clássicos da figura do sábio como aquele que mais do que deter conhecimento e informação, na realidade, é capaz de ponderá-los e fazê-los florescer em decisões e projetos mais positivos e robustos devido à sua inteligência emocional. E quanto ao conhecimento tecnológico, cada vez mais vemos a população sênior se debruçando a aprender como usar plataformas digitais e até mesmo a programar. Além disso, os jovens de hoje que já estão acostumados à internet e às redes sociais serão aqueles 60+ do futuro, então é possível que estaremos falando a mesma língua, desde que nos mantenhamos abertos ao diálogo e sem medo de aprender cada vez mais e todos os dias.

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