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Depois dos filtros de Instagram e Snapchat, a empresa chinesa SenseTime oferece software baseado em inteligência artificial para retoque de selfie e vídeos ao vivo, em tempo real.

Indo na contramão de movimentos que defendem uma maior aceitação e apreciação de diferentes tipos de corpos, a empresa chinesa SenseTime lançou recentemente uma tecnologia que se utiliza de inteligência artificial, ou mais especificamente visão de máquina (machine vision), como uma forma de aplicar filtros em tempo real. Ou seja, mais do que um filtro em realidade aumentada no Snapchat ou os ajustes feitos em aplicativos como Facetune, o que essa empresa promete é um software que conseguiria, por exemplo, mudar a cor do cabelo e dos olhos de uma pessoa ou emagrecê-la em tempo real, em uma transmissão ao vivo.

Conforme completamos 5 anos desde quando a palavra “selfie” foi eleita a palavra do ano pelo Dicionário Oxford, não só a prática se tornou algo rotineiro como também acabou provocando mais de 250 mortes causadas por pessoas que tentavam tirar selfie em situações de risco. Junto a essa tendência de comportamento, porém, também os algoritmos de inteligência artificial capazes de reconhecer rostos ficou mais poderoso e mais versátil, tornando-se um novo método de fazer pagamentos, acessar conteúdos ou locais, mas também como forma de vigilância.

É nesse sentido que o site Trendwatching coloca em questão se ter um filtro capaz de nos editar em tempo real é algo totalmente positivo ou, na verdade, pode trazer consequências desastrosas devido à potencialidade que essa mesma tecnologia tem para questões de vigilância. Na realidade, a SenseTime não é uma empresa focada em redes sociais e software de edição de fotos, mas sim uma empresa que se tornou conhecida por sua má fama em criar sistemas de segurança que a fez adquirir um valor de multibilionário devido às suas negociações com o governo chinês.

Também uma outra empresa chinesa chamada Meitu passou a valer 4 bilhões de dólares ao explorar o mercado das selfies melhoradas por inteligência artificial. Esse tipo de prática, aliás, já é bastante comum entre os chineses: cerca de 50% de todas as selfies compartilhadas pelos nativos são retocadas e passam pelo software da empresa. É por isso que o Trendwatching alerta: toda tecnologia distópica é capaz de ter sua versão palatável ou até mesmo totalmente abraçada pelo público, mas talvez poderíamos dizer que o contrário também pode ser verdadeiro.

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Com a possibilidade de passarmos a adotar lentes de contato que nos permitem enxergar em realidade aumentada, como aplicativos como o SenseTime podem interferir na nossa percepção?

Para o site, combinar reconhecimento facial suportado por IA com um aplicativo de retoque de selfies captura perfeitamente duas grandes tendências do momento. A primeira diz respeito à maneira como os aplicativos têm evoluído: “o Instagram nos ajudou a tirar fotos ‘melhores’ do mundo ao nosso redor; a Meitu faz as pessoas parecerem mais bonitas de forma fácil, mas só em fotos estáticas; os filtros em realidade aumentada do Snapchat então fizeram vídeos ao vivo menos intimidadores.” Já a segunda tendência diz respeito ao movimento anti-Photoshop, o que prova que consumidores podem ter, sim, comportamentos controversos e interesses conflitantes, porém simultâneos.

Enquanto o movimento anti-Photoshop segue mais como uma resistência, é natural que ainda as pessoas continuem editando suas fotos como um processo de transição. Porém, ao nos vermos diante de tecnologias como a da SenseTime, que facilitam e normalizam tais retoques, encontramos uma contratendência que pode, facilmente, desvirtuar o caminho já traçado pelos adeptos da body positivity e da body neutrality.

Como um exercício de futurologia, fica a questão: quando óculos de realidade aumentada ou mesmo lentes de realidade aumentada se tornarem a norma, será que passaremos a usar tais ferramentas de retoque de imagem em tempo real para nos manifestar como imagem em público? Será que criaremos uma nova camada para a realidade na qual modificamos nossa imagem corporal para além das telas e tornamos essas imagens retocadas o novo normal? É de se pensar e me lembra, em particular, a cena do filme The Congress, quando Robin Wright procura pelo seu filho em meio à população conectada à simulação em realidade virtual — um ambiente totalmente díspar ao ambiente físico em que eles se encontram maltrapilhos.


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