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Apesar de alguns projetos transhumanistas acreditarem que o “eu” está reservado ao cérebro, cada vez mais pesquisas neurocientíficas apontam para a não existência de um “eu” ou, ainda, que a nossa percepção do mundo está na relação corpo-cérebro e não mais apenas cerebral.

Dentre aqueles que, no transhumanismo, buscam pela vida eterna, há projetos que prezam, por exemplo, pelo transplante do cérebro humano para um corpo robótico ou então a conservação do corpo através da criogenia. Em empresas como a Alcor Cryonics, os clientes podem preservar apenas a cabeça ou o corpo inteiro na esperança de que, no futuro, teremos tecnologia o suficiente para “reviver” essas pessoas. Mas seria suficiente preservar apenas a cabeça ou todo o corpo se faz necessário para que percebamos o mundo?

Um recente artigo escrito pela professora de neurociência e psiquiatria da Universidade de Sussex Sarah Garfinkel indica que, de fato, parece que mente e corpo se comunicam para que o indivíduo (se é que ele existe mesmo, como questionam alguns de seus colegas de profissão e também os budistas) perceba o mundo externo.

Como forma de visualizar sua explicação, Garfinkel dá o exemplo de quando alguém subitamente fala conosco, quando achamos que estamos sozinhos. E por mais que peçam desculpas pelo susto, nosso coração continua disparado no peito, então qual seria essa relação entre nosso cérebro e o coração? Segundo a neurocientista, nós temos o costume de pensar que nossos sentidos se limitam a cinco, isto é, olfato, paladar, toque, visão e audição, porém esses sentidos são classificados como sentidos exteroceptivos, o que significa que eles dizem respeito apenas sobre aquilo que sentimos externamente ao nosso corpo. Já os sentidos interoceptivos nos informam sobre as sensações que temos internamente ao nosso corpo, como é o caso das batidas do coração, a sensação de ter borboletas no estômago ou mesmo a sensação de fome.

“O cérebro representa, integra e prioriza informações interoceptivas da parte interna do corpo. Elas são comunicadas a partir de uma série de conexões neuronais e de humor (por exemplo, através do sangue). Essa sensação dos estados internos do corpo é parte da troca entre o corpo e o cérebro: ela mantém a homeostase, a estabilidade fisiológica necessária para a sobrevivência; ela fornece os impulsos motivacionais necessários como a fome e a sede; ela explicitamente representa as sensações corpóreas, como distensão da bexiga. Mas não é só isso, e é aí que está a beleza da interocepção, como nossos sentimentos, pensamentos e percepções que também são influenciados por essa interação dinâmica entre o corpo e o cérebro.”

Mas essa não é, de fato, uma afirmação nova. Desde 1862, o filósofo americano William James já defendia que os aspectos mentais das emoções, isto é, os “estados dos sentimentos”, eram um produto da fisiologia. James propôs uma lógica reversa à maneira como intuitivamente pensamos a partir da causalidade ao propor que as mudanças fisiológicas do nosso corpo, em si, davam vazão a um estado emocional: nosso coração, portanto, não acelera porque estamos com medo, o medo, na realidade, surge por conta de nosso coração que está acelerado. Segundo Garfinkel, experimentos mais recentes também demonstram que as representações neurais e mentais de nossas sensações corporais internas são importantes para nossa experiência das emoções e, consequentemente, aqueles que possuem uma maior interocepção tendem a experienciar as emoções com mais intensidade. Ou seja, nas palavras da neurocientista:

“A região cerebral da insula anterior é de extrema importância no processamento tanto das emoções quanto dos sinais viscerais internos, o que sustenta a ideia de que essa área também é importante no processamento de sensações corporais internas como um meio de informar a experiência emocional. Indivíduos com maior interocepção também têm uma maior ativação da insula durante o processamento interoceptivo e uma maior densidade de massa cinzenta nessa área.”

Mas o que você deve estar se perguntando agora é se você possui essa interocepção mais aguçada ou não e o que isso, afinal, significa. Segundo Garfinkel, algumas pessoas possuem uma melhor percepção do que acontece dentro do corpo delas. Enquanto a maioria de nós sentimos apenas quando nosso coração dispara porque nos assustamos ou corremos para alcançar o ônibus, nem todos conseguem realmente sentir o próprio coração enquanto estão em estado de repouso. Essa precisão pode ser verificada em laboratório, conforme especialistas monitoram sinais fisiológicos e medem a precisão com a qual estes podem ser detectados. Historicamente, esse tipo de pesquisa esteve focada no coração, conforme seus sinais podem ser melhor quantificados através de seus estímulos externos, como quando conseguimos perceber o batimento cardíaco em nossos ouvidos. Conforme os participantes indicam o ritmo dessa percepção, os especialistas conseguem melhor quantificar quão precisa é essa sensação do indivíduo analisado.

Por outro lado, Garfinkel diz que também é possível de se medir índices subjetivos de quão precisas as pessoas acham que são ao tentar perceber suas sensações corporais. Para isso, são feitos alguns questionário e depoimentos pessoais, de modo que os especialistas possam fazer esse cruzamento entre o que eles percebem e o que de fato está ocorrendo em seus corpos. Fora isso, também há a metodologia que usa métodos de escaneamento de imagem do cérebro, como é o caso da neuroimagem funcional, que é usada para investigar quais áreas do cérebro estão mais ativas quando focando em um sinal interospectivo (como o coração) em relação a um sinal exteroceptivo (batidas auditivas).

No entanto, alguns indivíduos podem ter esse tipo de percepção não só limitada como também prejudicada por condições como a Alexitimia, que é definida como uma deficiência na capacidade de detectar e identificar emoções, e que está associada a uma menor precisão das sensações interoceptivas. Também indivíduos autistas, que podem possuir dificuldade em entender emoções, demonstraram ter esse tipo de problema com sua percepção interoceptiva. O mesmo pode ocorrer também naqueles que possuem distúrbio borderline de personalidade. O que Garfinkel comenta, no entanto, é que intervenções pensadas para reganhar o foco no corpo, como é o caso da prática do mindfulness, têm não só demonstrado uma melhora em casos de ansiedade como também podem ser uma forma de facilitar o acesso a essa percepção.

Por fim, de forma semelhante, Garfinkel comenta como também nosso corpo se modifica ao perceber as emoções daqueles que amamos — isto é, a empatia pode se tornar algo físico conforme nosso coração pode se acelerar quando vemos que uma pessoa que amamos está com medo ou então nossas pupilas podem dilatar ao percebermos que alguém está triste. “Se você prestar atenção no seu coração e respostas corporais, elas podem dizer como você está se sentindo e permitir que você compartilhe isso na emoção dos outros. A interocepção pode melhorar a profundidade de nossas próprias emoções, conectar emocionalmente aqueles que estão à nossa volta, e guiar nossos instintos intuitivos. Só agora estamos aprendendo como o que pensamos e sentimos é moldado por essa dinâmica interação entre o corpo e o cérebro”, conclui a neurocientista.

Sendo assim, quando nos anos 80 e 90 o movimento transhumanista era impulsionado pela ideia da mente acima do corpo (daí gerando obras como Mind Children de Hans Moravec e ficções científicas como Ghost in the Shell, Neuromancer e Altered Carbon), talvez este não levasse em consideração a importante relação corpo-cérebro que possibilita a complexidade de percepções, emoções e sensações que temos tanto ao captar o mundo exterior quanto o mundo interior. Se, no futuro, for mesmo possível trazer de volta à vida essas pessoas que tiveram seus corpos preservados, será que estas realmente poderão desfrutar das mesmas capacidades e sensorialidades de antes ou terão algumas de suas percepções privadas e, portanto, limados de algumas das camadas que compõem um suposto “eu”?

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