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Entre a conquista da técnica e a moralidade de sua aplicação, cientistas discutem possíveis maneiras de tornar a edição genética mais acessível a todos. No entanto, também isso teria um preço alto: o apagamento da diversidade humana.

Assim como nos anos 1970 a cibernética deslanchava, hoje assistimos ao desenvolvimento da engenharia genética após grandes descobertas como a técnica do CRISPR, isto é, o uso de uma enzima capaz de funcionar como uma tesoura no DNA, assim possibilitando sua edição precisa. Essa foi uma descoberta feita por Jennifer Doudna em 2012 e, desde então, assistimos a diferentes outras inovações que são expostas em eventos como o que ocorreu em Quebec e foi descrito por Walter Isaacson para o site Airmail.

Isaacson comenta como após as escolas terem entendido que todas as crianças devem aprender a programar em 0 e 1, logo elas também precisarão aprender a programar com outras variáveis, as do código genético: A, C, G e T. Diante dessas inovações, porém, surge a necessidade de se regular seus usos e práticas, já que fomos surpreendidos em novembro do ano passado quando um cientista chinês anunciou que havia editado dois embriões para tornar as crianças, já nascidas, imunes ao HIV. Fora isso, também um médico russo está planejando editar embriões para tentar eliminar a surdez congênita.

Nesse sentido, Isaacson narra a conversa que teve junto aos geneticistas em um jantar pós-evento, no qual descobriu um certo consenso entre os cientistas no que tange a segurança e a possibilidade de se fazer esse tipo de procedimento: eles devem ser feitos para reparar mutações genéticas, como o caso da doença de Huntington ou a anemia falciforme. No entanto, os cientistas ainda não se sentem seguros quando a edição diz respeito ao aprimoramento humano, como por exemplo dar mais massa muscular a crianças, altura, ou talvez até um QI e habilidades cognitivas superiores. “O problema é que a distinção é difícil de definir — prevenir a obesidade é uma cura ou uma melhoria? — e ainda mais difícil de reforçar. ‘Veja o que os pais estão querendo fazer com seus filhos na universidade’, diz Feng Zhang. ‘Algumas pessoas irão certamente pagar por melhorias genéticas.’”, descreve Isaacson.

A questão, porém, está não apenas na possibilidade de se desenvolver esse tipo de técnica ou tecnologia, e sim quem teria acesso a ela, o que, a princípio, não seria generalizado por conta de seus custos ainda altos. É a partir dessa perspectiva que Isaacson traz como comparação à problemática atual o enredo do romance Admirável Mundo Novo, publicado em 1932 e escrito por Aldous Huxley. No livro, o autor fala sobre como a modificação de embriões produz um sistema de castas que se distinguem por níveis de melhoria intelectual para líderes e capacidades cognitivas reduzidas para os trabalhadores. “Nosso mundo já está sofrendo de disparidades cada vez maiores com relação à riqueza e à oportunidade, e o livre mercado de melhorias genéticas poderia produzir um salto quântico nessas desigualdades, bem como, literalmente, codificá-las para a eternidade. ’Em um mundo no qual há pessoas que não têm acesso a óculos’, diz Feng Zhang, ‘é difícil de imaginar como iremos achar uma forma de ter acesso igual à melhoria genética. Pense no que isso pode fazer à nossa espécie.’”

Ao conversar com Peggy Hamburg, que é diretora da Associação Americana de Avanços Científicos e foi nomeada para participar do conselho de edição genética da Organização Mundial da Saúde, Isaacson comenta como houve um choque generalizado quando a notícia do médico chinês foi divulgada a respeito da edição genética em embriões humanos. No entanto, Hamburg acredita que não é possível de se criar uma lei única para todos os países do mundo. “Temos diferentes atitudes e padrões regulatórios, assim como temos no caso de alimentos geneticamente modificados”, argumentou Hamburg. Nesse sentido, a OMS poderia então criar um “menu” de possibilidades regulatórias para cada país o que, no entanto, poderia levar a um cenário de “turismo genético”: os mais ricos que querem melhorias poderão viajar para países que oferecem esse tipo de serviço, assim como hoje já temos locais como o próprio Brasil ou a Tailândia que são focos de turismo para interessados em cirurgia plástica. “É muito difícil de regulamentar práticas e padrões. Não é como se faz com armas nucleares, com as quais você tem guardas e cadeados para reforçar a segurança”, opina Hamburg.

Uma das possibilidades, porém, seria abrir mão da patente dessas técnicas, o que, por um lado, poderia diminuir o interesse dos pesquisadores em avançar seus estudos na velocidade que hoje a área da genética se encontra. No entanto, o que a reflexão de Isaacson nos leva a crer é que, apesar de diminuído o ritmo da inovação, isto é menos importante do que tornar as descobertas acessíveis e mais baratas a todos e não apenas aos 10% mais ricos capazes de pagar por esses procedimentos.

De qualquer modo, será que esse seria o cenário desejável? Isaacson encerra seu texto descrevendo a multiplicidade de eventos e de pessoas que se reúnem pelas ruas de Nova Orleans: de todas as cores, alturas, tipos de corpo ou até mesmo conversando em linguagem de sinais. “Levou mais de 3.2 bilhões de anos para que as leis da natureza e a natureza em si criasse três bilhões de bases de DNA de um modo complexo e ocasionalmente imperfeito para permitir toda a diversidade magnífica entre nossa espécie. Estamos certos de pensar que agora podemos, em algumas décadas, editar esse genoma para eliminar o que nós vemos como imperfeições? Iremos perder nossa diversidade? Iremos nos tornar mais sem gosto, como nossos tomates? Será bom para nossa espécie?”

Entre a eugenia e a aceitação (bem como inclusão) da diversidade mora, no entanto, a oportunidade financeira. Hoje, sem termos a possibilidade de fazer esse tipo de procedimento genético, já assistimos à criação de uma desigualdade no desenvolvimento das crianças conforme algumas têm oportunidade de manter atividades extra-curriculares, enquanto outras não podem arcar com esses gastos.

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em parceria com a Voices in Urban Education pegou uma amostragem de alunos que fizeram atividades extracurriculares desde os anos 1970 até hoje, então tentando entender se esse tipo de comportamento levou a alguma diferença em sua formação. O que os pesquisadores descobriram, conforme relata reportagem na The Atlantic, foi alarmante: “as diferenças econômicas na participação de atividades extracurriculares estão crescendo, e essas diferenças devem afetar profundamente no futuro. A disparidade aumenta o já crescente abismo econômico que mantém as crianças pobres para trás na escola e ao longo de suas vidas. Enquanto estudantes de classe média e alta se tornaram mais ativas nos clubes das escolas e nos times durante as últimas quatro décadas, seus parceiros da classe trabalhadora ‘se tornaram cada vez mais desengajados e desconectados’, particularmente desde que suas taxas de participação começaram a cair nos anos 90, o estudo descobriu.”

Em outras palavras, o acesso à educação já é, em si, uma forma de manipular o desenvolvimento das pessoas sem necessariamente recorrer a algum procedimento a nível genético. O acesso a atividades extracurriculares ou à própria educação já são fatores determinantes de inclusão e exclusão das pessoas no futuro, seja pela verve da empregabilidade ou da própria condição de alfabetização — o Brasil ainda conta com 6,8% de sua população composta por analfabetos, enquanto que os níveis mundiais somam mais de 750 milhões de pessoas. Assim, poderíamos dizer que certas consequências já são vividas hoje, sem o uso de técnicas de edição genética, o que tais procedimentos poderiam incutir, portanto, é uma acentuação desse problema em nível geracional, uma vez que em vez de questão de oportunidade e acesso, estaríamos falando de algo mais intrínseco ao indivíduo: o seu próprio DNA.

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