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Autores como Douglas Rushkoff e Gray Scott defendem uma interpretação mais inclusiva do transhumanismo ao pensar em uma transição para esse futuro em que todos possam ter acesso às possibilidades da tecnologia, e não uma fantasia pós-apocalíptica da elite.

Quando falamos de pós-humanismo e transhumanismo, falamos de um novo olhar, de um movimento filosófico que pensa em novas formas de manifestação do ser humano ou, em última instância, a reavaliação do que é ser humano e se não queremos nos modificar e transcender nossa condição.

Se, por um lado, como espécie evoluímos de maneira natural e afetada pelo nosso entorno ao longo de milhares de anos, agora temos a oportunidade de usar tecnologias como a cibernética, bioengenharia e nanotecnologia, por exemplo, para acelerar esse processo de evolução e modificação de nossos corpos e mentes. Mas enquanto diferentes espécies morreram por não se adaptarem ao ambiente e às evoluções de seu semelhantes, daí dando origem ao conceito da sobrevivência do mais apto, de Charles Darwin, hoje podemos acabar nos tornando essa espécie que não sobrevive mas muito menos por nossa incapacidade adaptativa e muito mais por conta de nosso poder aquisitivo.

Em seu texto Survival of the richest, douglas rushkoff faz um trocadilho com a expressão “survival of the fittest”, trazendo a problemática de como os atuais milionários e bilionários, na verdade, seriam aqueles mais “aptos” a continuarem vivendo por muitos e muitos anos, talvez até em outros planetas. Isto é, se as promessas de imortalidade, de usar a engenharia genética para alterar nossos genes “defeituosos” e assim evitar doenças como o câncer, ou mesmo de viver em uma colônia em Marte parecem empolgantes, é provável que nós, reles mortais pagadores de boletos, não conseguiremos vivenciar isso. Não porque a tecnologia não terá evoluído o suficiente antes de morrermos, mas porque um maior acesso, mais democratizado, demore muito mais do que poderemos aguardar em vida.

A verdade é que o transhumanismo, da maneira que se desenvolveu no ocidente, já tinha em suas origens uma vertente liberalista, como descreveu o futurista Nick Bostrom. E a popularização da futurologia ou do futurismo também se deu por conta do mercado: são as grandes empresas que estão interessadas em saber das possibilidades do futuro para continuar prosperando e não perderem seu poder conquistado ao longo de tantas décadas. Paga-se cursos e palestras para ouvir que seu negócio está ameaçado por uma nova tecnologia ou por uma nova startup que promete disrupção, mas o que efetivamente se faz diante desse contexto? Bom, muitas vezes essas startups são compradas por grandes empresas como o Facebook e o Google, e a lógica do monopólio continua a mesma, porém de forma um pouco subvertida: em vez de a decisão partir de uma grande empresa forçando que os consumidores usem seu serviço ou produto ao comandar o mercado e impedir a diversidade de escolhas, agora são os consumidores (ou usuários) que definem quais empresas continuam relevantes ao se concentrarem em suas plataformas.

Em outras palavras, como a futurista Daniela Klaiman descreve em suas palestras sobre o conceito de monopólio social, não é mais porque uma grande empresa compra todos os bares e força que todos vendam sua cerveja, mas sim porque as pessoas preferirão frequentar aquele bar que tem a cerveja que gostam e que as outras pessoas frequentam. É o que acontece com o Facebook: não importa se outras redes sociais são criadas com a promessa de, por exemplo, proteger sua privacidade. A própria lógica da rede social é estar onde todos estão, afinal. E se um grande movimento de pessoas não deixar o Facebook, essa nova plataforma nunca irá funcionar, porque essa é a sua lógica de funcionamento. Mas mesmo depois de sabermos de casos de vazamento de dados ou a modificação do algoritmo para reforçar nossas bolhas, não saímos de lá porque é lá onde estão nossos amigos. Talvez isso mude com as novas gerações, que não querem estar na mesma rede social onde estão seus pais. Mas, por enquanto, elas estão focadas em redes como o Instagram, que também é propriedade do Facebook.

O que isso significa, afinal, quando falamos do nosso futuro como espécie? É que essas grandes empresas e empresários como Mark Zuckerberg, Elon Musk e Jeff Bezos não estão realmente interessados naquilo que os entusiastas da internet, durante os anos 1990, sonhavam. Como descreve Rushkoff, naquela época,

“a tecnologia estava se tornando o parque de diversões da contracultura, que viu nela a oportunidade de criar um futuro mais inclusivo, distribuído e pró-humano. Mas os interesses das indústrias já estabelecidas somente viram potencial para a mesma velha extração, e muitos tecnólogos foram seduzidos por IPOs unicórnio. Futuros digitais passaram a ser entendidos mais como futuros negócios — algo para ser previsto e fazer apostas. Então quase toda palestra, artigo, estudo, documentário ou documento oficial passou a ser considerado relevante apenas se tivessem relação com o mercado de ações. O futuro se tornou menos algo que criamos através de escolhas do presente ou esperanças pelo futuro da humanidade do que um cenário predestinado no qual apostamos nosso capital de risco, mas conquistamos passivamente.”

Curiosamente, durante as eleições americanas de 2016, também os Estados Unidos possuíam um candidato à presidência representando o Partido Transhumanista: Zoltan Itsvan, um entusiasta do transhumanismo que encontrou na política e no jornalismo uma forma de divulgação e diálogo sobre o tema. Há alguns dias, ele publicou o artigo Transhumanism is Under Siege from Socialism, no qual comenta que “transhumanistas devem defender o mundo livre e o livre mercado para tornar seu movimento o mais poderoso e bem sucedido o possível”, de modo que, para isso, entusiastas transhumanistas devem se proteger do socialismo.

Diante dessas constatações, o também futurista Gray Scott escreveu um artigocriticando o posicionamento de Itsvan ao levantar a pauta de que, na realidade, o transhumanismo precisa do socialismo se a ideia for fazer com que ele realmente prospere e gere transformações sociais diante do crescimento movimento de automação.

Em seu texto, Scott comenta que Itsvan assume que o transhumanismo tem adquirido certos tons esquerdistas após uma história focada no liberalismo. Segundo ele, isso aconteceu porque muitos jovens passaram a adotar esse pensamento e, durante os últimos anos, algumas pesquisas demostraram que a maioria dos jovens hoje possuem um olhar mais positivo no que diz respeito ao socialismo.

O que Zoltan convenientemente esquece de comentar, no entanto, é que a história do transhumanismo não começa com os extropianos libertários do fim dos anos 80 e começo dos anos 90: na verdade, suas origens estão bem mais atrás no chamado Cosmismo Russo — um movimento filosófico e cultural do começo do século 20. De Nikolai Fyodorov a Vladimir Vernadsky, seus membros, apesar de em pouca quantidade na época, não só discutiam assuntos como extensão da vida como também eram bastante progressivos socialmente, acreditando que um futuro transhumanista seria naturalmente pós-capitalista.
Sim, muitos desses ideais foram introduzidos no mundo ocidental por alguns libertários visionários no fim do século 20, mas depois de algumas décadas de crescimento, o movimento transhumanista, como relutantemente admitiu o próprio Zoltan, está voltando para suas origens. E o faz de forma correta.

Enquanto nos ciclos de futurismo, empreendedorismo e comunicação muito se fala das novas economias, sejam elas colaborativas ou compartilhadas, é a ideia de um novo momento do capitalismo, então considerado mais consciente, que vem sendo divulgada e apoiada como forma de transição para esse futuro no qual a perspectiva é passarmos por uma nova onda de desemprego por conta das exponencialmente crescentes tecnologias da automação.

Mas, se por um lado, algumas pessoas, como Itsvan, acreditam em um empresariado mais filantrópico, tendo em vista iniciativas como a Bill and Melinda Gates Foundation ou mesmo as doações multimilionárias de Zuckerberg visando à erradicação de doenças ao fim desse século, Scott vê esse tipo de iniciativa com certa desconfiança:

“Apesar de reconhecer e apreciar o senso de urgências desses líderes do mercado em construir um futuro melhor, seus véus altruístas estão começando a demonstrar falhas.
Mais especificamente, resquícios de um capitalismo exploratório se manifestaram nas práticas de seus negócios quando falamos de direitos dos trabalhadores. Sim, empreendedores da tecnologia, como Elon Musk, Jeff Bezos e Richard Branson, querem erradicar doenças e democratizar a viagem espacial. Infelizmente, há mais uma coisa que esses três têm em comum: repressão sindical!
Desde a Tesla até a Amazon e a Virgin Galactics, trabalhadores dessas três empresas são explorados sem nenhuma perspectiva de melhoras. Historicamente falando, o direito de negociar coletivamente nos Estados Unidos foi popularizado pelos socialistas na linha de frente da batalha contra o trabalho infantil, baixos salários e condições de trabalho terríveis durante a revolução industrial. E agora que uma nova revolução industrial está acontecendo, sindicatos são mais importantes do que nunca.
Musk, Bezos e Branson discordam. E, mesmo assim, Zoltan acredita que esses líderes do mercado irão contribuir abertamente por uma renda básica universal? Considere-me cético.
Na verdade, se trabalhadores humanos demitidos pela automação têm alguma chance de receber uma renda básica, isso não virá de líderes do mercado que operam a partir dos interesses do capital, mas sim de sindicatos que operam pelos interesses dos trabalhadores. Seja a partir de uma renda básica que seja suportada por uma maior taxação corporativa, distribuição de lucros ou mesmo uma divisão de terras federais, os trabalhadores ainda assim precisarão de alguém lutando por seus interesses.
Aqueles dispensados de seus postos de trabalho precisarão de uma renda básica para permanecer financiamente estável e, se possível, em condições de servir melhor novas indústrias. E para essas pessoas que ainda têm um emprego, há ainda o problema de uma crescente desigualdade econômica conforme ricos ficam mais ricos e os pobres vivem com o mínimo. Claramente, esses filantropos da tecnologia não têm nenhum interesse em fornecer uma renda básica. (…)
Mais importante ainda, no entanto, é entender que esse sistema de renda básica não deve ser confudido como algo que irá ‘salvar’ o capitalismo. Como empresários e teóricos da economia já notaram, a proliferação da automação irá eventualmente construir um futuro de abundância que é pós-escassez e pós-capitalismo.”

Enquanto Scott se foca principalmente em questões como desigualdade econômica e o futuro do trabalho e da economia, Rushkoff está mais preocupado na maneira como esses mesmos agentes econômicos estão tratando certas características humanas mais como um bug do que como um elemento constitutivo. E isso tem sido abordado de forma preocupante na ficção científica atual:

“Nossos filmes e séries televisivas brincam com essas fantasias por nós. Séries de zumbi mostram um futuro pós-apocalíptico em que as pessoas não são nem um pouco melhores que os mortos-vivos — e parecem saber disso. Pior, essas séries convidam a audiência a imaginar o futuro como uma batalha pela sobrevivência entre os seres humanos restantes, no qual a sobrevivência de um grupo depende da morte de outro. Mesmo Westworld — baseado em um romance de ficção científica no qual robôs se rebelam — termina sua última temporada com uma grande revelação: seres humanos são mais simples e previsíveis do que as inteligências artificiais que criamos. Os robôs aprendem que cada um de nós pode ser reduzido a apenas algumas linhas de código, e que somos incapazes de fazer qualquer escolha própria. Droga, mesmo os robôs nessa série querem escapar dos limites de seus corpos e viver o resto de suas vidas em uma simulação virtual.
Toda a ginástica mental necessária para tal troca entre humanos e máquinas dependem da compreensão de que seres humanos são terríveis. Vamos então mudá-los ou fugir deles, para sempre.
Nesse sentido, temos bilionários da tecnologia lançando carros elétricos no espaço — assim como se isso simbolizasse algo mais do que a capacidade de um bilionário promover sua corporação. E se algumas pessoas escaparem a velocidade de escape e, de alguma forma, sobreviverem em uma bolha em Marte — apesar de nossas inabilidade de manter tal bolha mesmo aqui na Terra, em qualquer dos testes multimilionários de biosferas — o resultado será menos uma continuação da diáspora humana do que um bote salva-vidas para a elite.”

Do mesmo modo que Scott acredita em um futuro mais calcado pelos ideais do socialismo, também Rushkoff defende a coletividade: “Ser humano não é sobre sobrevivência individual ou fuga. É um esporte coletivo. Independentemente de qual futuro teremos, ele será em conjunto.” O que ele questiona, contudo, é como esses grandes e poderosos empresários já se vêem em um contexto pós-apocalíptico, de modo que não estão sequer interessados em saber como evitar a calamidade, mas sim de como sobreviver nela ou à ela. Como descreve Rushkoff, “apesar de toda a sua riqueza e poder, eles não acreditam que podem afetar o futuro. Eles estão simplesmente aceitando o pior de todos os cenários e então trazendo qualquer dinheiro e tecnologia que eles puderem para se isolar — especialmente se eles puderem ter um assento no foguete para Marte.”

É nesse sentido que apenas os mais ricos e mais poderosos terão acesso a tecnologias e oportunidades de viver por mais anos, se quiserem, ou de fugir de alguma suposta grande catástrofe em vez de, na verdade, utilizar sua riqueza e poder justamente para evitar qualquer catástrofe que venha a acontecer. Ainda que o transhumanismo possa ter tomado esse tom elitista, uma vez que poucas pessoas têm acesso a tais tecnologias de ponta e também caríssimas, Scott argumenta que precisamos pensar sobre o custo não-monetário que isso pode ter para as pessoas que não têm a mesma possibilidade. Pense no filme Elysium, por exemplo, e como os personagens da parte pobre enfrentam cruzadas semelhantes àquelas vivenciadas na fronteira México-Estados Unidos, para que assim possam ter acesso aos tratamentos e tecnologias disponíveis apenas no espaço da elite?

Como continua Scott, então, se quisermos realmente construir um futuro calcado nos ideais de transcendência e abundância do transhumanismo e do pós-humanismo, objetivos como a cura do envelhecimento, por exemplo, devem ser algo acessível a todos e não apenas àqueles que podem pagar por um plano de saúde premium. É por isso que Scott defende um olhar mais socialista no transhumanismo não como uma forma de ser anti-capitalista, mas sim como um processo de transição a partir do estágio final do capitalismo, assim oferecendo uma possibilidade de futuro em que a escassez não existe mais. Isto é, de forma mais honesta, pensar em um pós-capitalismo de abundância e mais consciente não é pensar em um capitalismo 2.0, mas em um socialismo atualizado ao contexto tecnológico e social no qual nos inserimos e para o qual caminhamos.


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