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Entre utopias e distopias, as nuances e ambiguidades do que é ser livre e consciente dentro da própria liberdade

Desbravar novos caminhos e trilhar o próprio destino em direção a uma realidade plena e completa parece demonstrar um desejo instintivo, inseparável da condição humana no mundo secular em que vivemos: a constante busca pela liberdade. Seja ela como for, diversas narrativas, obras e livros nos apresentaram cuidadosamente cenários utópicos e distópicos que brincam com a manipulação da liberdade.

Ursula K. Le Guin, em uma de suas novelas de ficção científica, acabou desenhando o mundo d’Os Despossuídos, uma sociedade anarquista, utópica, onde os seres que habitam o planeta de Anarres narram o rompimento com o mundo opressor, desumano e capitalista que antes habitavam. Em Anarres, como na realidade em que vivemos, ainda que a relação com a natureza seja mais equilibrada e o entendimento de hierarquias seja diferente do mundo capitalista, Le Guin demonstra com firmeza a dicotomia imperante que existe entre o desejo de ser livre e o de se submeter a determinada ordem ou dinâmica.

Ainda que muitos possam acirradamente confrontar a dualidade que existe entre esses ambos pólos ao condenar a existência humana entre paradigmas firmes e insolúveis, admitimos que, talvez, entre liberdade e poder exista uma coexistência intrínseca e inseparável. Entre branco e preto, os matizes ásperos e cinzas que circundam os mundos utópicos e distópicos desta sociedade acabam gerando não somente possibilidades diferentes de como podemos acessar a liberdade, mas de como podemos detectar que estamos sendo submetidos ao poder.

A atual política do mundo segue uma norma rígida positivista. Nela, acreditamos que pertencemos a uma roda contínua e permeável, que dispõe de camadas que inicialmente parecem acessíveis. Falsamente, empurramos nossas práticas em direção a um sem-fim. O costume popular do “quem quer consegue” é introduzido silenciosamente em nossa forma de pensar, provocando um desejo incontrolável de realizar o que queremos de maneira intuitiva. Se falhamos, somos conduzidos ao fracasso, como se por acaso o fato de que existem mais portas fechadas que abertas seja culpa do cidadão comum. Ainda que possamos analisar friamente, a liberdade que queremos agarrar está sujeitada, vulnerável.

Karl Marx pontua que “[…]os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem… a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.” As respostas e os resultados acabam demonstrando que mesmo quando agimos com livre arbítrio, somos conduzidos por interesses de mercado, por vieses políticos interiorizados ou por uma inércia imperante. Esse emaranhado profundo do que devemos ou não fazer acaba criando práticas no nosso cotidiano em que a utopia aparece como uma matéria distante, sempre inalcançável, representada pelo desejo mais profundo de cada homem.

A utopia revela um mundo seguro, igualitário e íntegro. Absoluto. Onde cada indivíduo vive em plena felicidade, completo. A vida neste mundo é inquestionável, tal como o desejo íntimo individual pela liberdade. Augusto Cury disse que a liberdade é uma utopia, e talvez seja. Eu não sei. O que neste caso entra em xeque é como uma utopia é apresentada, quais são os meios que a puseram adiante, e qual é o custo de viver utopicamente. O que significa se sentir seguro, igual e íntegro? Feliz, talvez?

Curiosamente, vivemos em um período no qual o acesso à informação é difundido de maneira indomável. Isso às vezes pode ser confundido com liberdade, com democratização, com felicidade. A permissão de que não exista controle sobre o que lemos ou acessamos, seja por meio da Internet ou de dispositivos inteligentes, pode dar a falsa pista que estamos entrando numa realidade sem limites.

Uma das ideias básicas do Estado-nação moderno se fundamenta no conceito de que para fazer parte de algo, um país, por exemplo, é necessário que todos trabalhem conectados e que compartilhem um objetivo comum. Ainda que existam desigualdades entre indivíduos, todos caminham rumo a um contínuo progresso, que em troca lhes é concedido acesso à proposta de vida plena que sugere o Estado. O Estado-nação se fundamenta em um meio cultural, social e político, pois se baseia na identidade nacional, num sentimento de pertencimento a uma determinada comunidade, e na promessa de prosperidade que depende intrinsecamente do acesso à informação.

Para os favores ou sub-favores, pelos ganhos ou re-ganhos alcançados com os tiranos, finalmente existem quase tantos para quem a tirania parece ser lucrativa quanto aqueles para quem a liberdade seria agradável.

Essa servidão voluntária sobre a qual comenta Étienne De La Boétie pode ser estabelecida na crítica à cultura que os meios comuns de informação exercem. A enganadora promessa de liberdade que permeia a democratização da informação está em que o acesso à informação ou à cultura não está gerado com um objetivo de coesão nem de inclusão, senão, em um projeto de incorporação à submissão.

A função ética e crítica sobre como entender a cultura que é disseminada se desenvolve precisamente em análises sobre a relação do saber-poder que acabou construindo o sistema de dominação que vivemos. Como sabemos e o que sabemos, sempre de uma determinada maneira, terão consequências sobre como elaboramos o sentido e o valor de nossas vidas. Para isso é necessário compreender a função política e ética que esse acesso “democrático” acaba gerando por meio de suas práticas. Em um mundo utópico, o acesso livre à informação nos conduz a um estado apático de silêncio e manipulação. Em um sentido amplo da palavra, um mundo utópico de meros indivíduos “cultos” representa a aceitação de que o poder é lícito para injetar suas manobras opressivas livremente, imperceptivelmente.

Foto: David Garcerán
Foto: David Garcerán

Por outro lado, seguir indagando e suspeitando sobre o que os nossos saberes alimentam e legitimam em respeito ao poder, perigosamente, nos acaba levando ao abandono da questão fundamental sobre o saber e a emancipação, sobre a confiança fundante de que o pensar em conjunto tem a capacidade de transformar a vida. Essa transformação ocorre, necessariamente, quando pensamos: não somente ao elaborar teorias, mas quando interrompemos os assédios ideológicos que chegam cada dia em um ruído permanente através de bolhas midiáticas. É nesse momento reflexivo de elaboração da experiência humana que não somente destruímos as nossas correntes, mas nos separamos da empresa coletiva da sociedade atual para buscar a emancipação e a liberdade por completo.

A principal missão do homem, na vida, é dar luz a si mesmo e tornar-se aquilo que ele é potencialmente.” Erich Fromm, quando analisava a existência humana em referência às suas relações de liberdade, submissão e controle, comenta que a busca pela liberdade e a rejeição à submissão repousam na elaboração sobre as condições de vida em si. Ou seja, trata-se da obtenção de uma vida que cumpre com condições de liberdade e dignidade, sempre em relação às aspirações das nossas percepções pessoais. É, sem dúvida, a contraposição à ideia de que mesmo na existência de um meio comum, não necessariamente significa que esse meio seja igualmente acessível a todos, ou que exista um modelo abstrato ideal sobre o qual nós podemos nos incorporar. A utopia, enganosamente, delimita as bordas sobre uma existência; a distopia é precisamente o rompimento com o cordão umbilical da submissão.

Estar rodeado de uma fumaça densa, cinza e sufocante parece cenário de filme sobre um mundo distópico que não queremos viver. Um filme aterrorizante sobre um futuro distante, quando carros voadores vivem na atmosfera com medo de tocar os pés nos chão. A terra, nesse contexto, é um ambiente hostil, de simulações virtuais, ditaduras incorruptíveis, líderes opressivos e uma massa submetida ao poder da máquina. Nela, o homem, na falta de Deus, anelou uma inteligência artificial que fosse melhor que a sua. A tecnologia se apresenta como uma nova mística.

Nesse mundo totalitário, o que vemos é a degradação irreversível das condições humanas.

O fogo que consumia a floresta amazônica, muito antes de soar o alarme da segunda-feira do dia 19 de agosto de 2019, deixou rastros imperdoáveis sobre um futuro do pretérito similar a um cenário distópico apresentado em filmes como Blade Runner ou Brazil. Aqui, fica difícil imaginar uma utopia quando os caminhos viáveis não inspiram mais que o desespero.

As dúvidas são múltiplas e mesmo assim perduram — indivisíveis. As consequências dos nossos atos e as consequências do nosso saber representam a irreversibilidade dos feitos. Por outro lado, é através da oposição à irreversibilidade dos feitos onde encontramos a ínfima esperança de liberdade, pois ela reside em nunca deixar de elaborar uma atividade recíproca de conquista. De recompor espaços, refazer sentidos e aprender a construir uma confiança que podemos acessar sobre o que é fundamental e básico.

Isso atravessa as nossas condições fundamentais da experiência humana, de dignidade e liberdade. Pois é durante o caminho de oposição à submissão que alcançamos a utopia, e não quando chegamos lá.

Laura Del Vecchio Lança é editora na Envisioning como definição social. Filósofa como profissão errante.

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