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O que o livro infantil A Parte que Falta tem a ver com o tema da automação e do futuro do trabalho?

O que tem passado pela sua timeline nas últimas semanas? O vídeo da Jout Jout lendo o livro infantil A Parte que Falta de Shel Silverstein? O desfile da Gucci com modelos segurando em mãos versões hiperrealistas de suas próprias cabeças? Ou, ainda, o mais recente desfile da grife Dolce & Gabbana que trouxe para as passarelas drones carregando bolsas em vez de modelos? Mais do que isso, é a grande tendência da angústia diante do exponencial desenvolvimento tecnológico que nos põe a questionar nossa relevância como trabalhadores, como companheiros, como seres humanos.

Mas o que tem a ver o livro A Parte que Falta? Por que a leitura da vlogger carioca impactou tantas pessoas hoje, sendo que ele traz um tema que abala a humanidade desde seus primórdios? O assunto, aliás, é um dos grandes questionamentos da psicanálise, ao qual nomes como Lacan, por exemplo, se debruçou ao longo de seus estudos.

Acontece que essa angústia, esse medo de incompletude, insuficiência e de sermos indivíduos descartáveis retorna hoje não por conta da maneira como nos relacionamos entre si, mas porque estamos diante da possibilidade cada vez mais latente de que autômatos serão capazes de nos emular tão perfeitamente e ao mesmo tempo tão aperfeiçoadamente, à medida que seriam capazes de se livrar de alguns de nossos “defeitos” e oferecer máxima performance.

Ao mesmo tempo que Pigmaleão queria que sua escultura falasse, Dr. Frankenstein se viu diante do problema causado por sua ambição em dar vida à criatura. Na ficção científica moderna, é o mito de Prometeu e sua ousadia em mexer com o fogo que retorna para castigar o imaginário distópico de obras como Westworld ou Ex Machina, ou ainda, de um outro ponto de vista, na franquia Alien de Ridley Scott até mesmo a não tão popular sequência Prometheus.

Se, por um lado, a existência de seres artificiais emulados à imagem e semelhança de seus criadores suscita a clara e rápida conexão com a narrativa bíblica, por outro ela ainda traz inúmeras outras questões filosóficas, econômicas, políticas, sociais. Porque, afinal, à medida que criamos máquinas, seres artificiais, que nos emulam em tantos quesitos, a consequência natural seria enfrentar os efeitos colaterais em todos os outros espaços que habitamos como seres humanos. Em outras palavras, quanto mais próximos de nós mesmos, mais os autômatos nos trariam consequências em tudo aquilo que está relacionado a nós.

E é esse medo de nos tornarmos descartáveis, obsoletos, substituíveis, incapazes que nos causa essa angústia e faz com que as pessoas chorem diante de narrativas tão simples como a do livro A Parte que Falta. Em um momento em que tantas pessoas sofrem de ansiedade (o Brasil é o país mais ansioso do mundo), o sentimento de angústia e da perda de significado da própria existência como ser humano vem como um desdobramento do medo da castração de Freud, o medo da indicação de perigo e do trauma psíquico. E essa angústia, como defende o psicanalista, funciona como um mecanismo antes mesmo do princípio do prazer.

“Produzi-la [a angústia], como proteção ao encontro com o traumático, é o objetivo dos sonhos traumáticos. Dessa forma, diz Freud, na neurose traumática os sonhos reproduzem uma situação de extremo sofrimento e repetição do trauma, e não podem estar, portanto, referidos ao princípio do prazer. Tal repetição poderia ser assim pensada como uma tentativa de estabelecê-lo por meio do desenvolvimento da angústia, porque não houve possibilidade de sua atuação como sinal no momento da vivência traumática. Indicam assim, via de regra, uma tentativa de estabelecimento do prazer, o que indica que ele, o princípio do prazer, não estaria estabelecido a priori. Não se pode mais considerar, então, que é a libido não utilizada que causa a angústia, mas, em função da teoria do trauma, Freud indica duas origens da angústia: uma consequente do momento traumático e outra como sinal que ameaça como uma repetição de um determinado momento. Aqui transparece a necessidade lógica de a instância egoica ser considerada a produtora e a sede real da angústia. (PISETTA, 2009)

Portanto, essa angústia parte do pressuposto de nossa própria experiência pessoal vivenciada em diferentes escalas até a visualização, ou antecipação, de um proeminente ocorrido capaz de causar um novo momento traumático. Este, consequentemente, pode ser vislumbrado a partir das narrativas, sejam elas no sonho (traumático ou não), na notícia sobre um novo robô avançado (ou na fake news de drones assassinos), nos filmes e livros de ficção científica, na música, em uma leitura enviesada e que traga em cada indivíduo a identificação (instância egoica) que produz a angústia.

É por isso que, talvez, o teatro de horror de séries como Black Mirror tanto fazem sucesso por refletirem a angústia interna à nossa cultura contemporânea e ao nosso estado de espírito quanto, em um círculo vicioso, retroalimentam essa ansiedade que, sim, é fundamentada, mas não necessariamente tem sido racionalizada.

Da mesma forma que precisamos nos educar contra as fake news, por exemplo a partir da educomunicação, também precisamos nos educar sobre os princípios da tecnologia, de modo que o nosso desconhecimento não proporcione e não seja alimentado por discursos de horror. Em adição, não é só a partir do conhecimento técnico que alcançaremos a “iluminação”, como pretendia o Iluminismo, mas sim a partir de um olhar amplo e complexo diante das várias camadas que constroem a nossa realidade, o que sugere, por exemplo, novos sistemas de ensino como o STEAM.

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