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Como a tecnologia pode não ser uma antagonista da natureza e criar novos hábitos e sentimentos de si ao longo da história humana

Assim como a dicotomia estabelecida entre cultura e natureza, existe também a ainda mais evidente oposição entre natureza e tecnologia. Em Do Sexto Sentido, o etólogo Boris Cyrulnik dedica um capítulo especial ao tema da tecnologia. O livro, aliás, é vasto em todos os assuntos que são abordados pelo teórico que traz um olhar biológico sobre o comportamento humano, pondo-o exatamente no mesmo patamar de outros animais já que, afinal, apesar de frequentemente nos esquecermos, também somos animais.

Nesse capítulo sobre a tecnologia, Cyrulnik inicia seu discurso reforçando como uma descoberta técnica, ao alterar a “ecologia perceptível”, também é capaz de alterar os costumes das pessoas e o próprio sentimento de si. O autor fala sobre o cabresto, um acessório que pode parecer rústico em comparação a tecnologias mais avançadas como a robótica e a inteligência artificial, mas que não deixa de ser uma tecnologia. Quando este foi incorporado ao mundo agrário, foi justamente ele, o cabresto, que se tornou responsável pelo desaparecimento da escravatura.

O peitoral, golilha, sufocava os cavalos a partir de uma carga de sessenta quilos. Eram precisas várias dezenas de homens e, por vezes, centenas para puxar cargas pesadas por passagens delicadas. Assim que o cabresto, colar de ombro, foi criado, a força motriz do cavalo multiplicou-se por dez. O homem deixava de ser motor. Foi substituído pelo cavalo, que ele mesmo o será mais tarde [substituído] pelo cavalo-vapor. (…)
Atualmente, um casal que compra um automóvel, um aquecimento central e uma máquina de lavar possui, sob a forma de robôs domésticos, o equivalente a cinquenta escravos. Se uma catástrofe econômica acabasse por fazer desaparecer estes robôs, estou convencido de que homens e mulheres alugariam de novo as costas e mãos para os substituir.

Desse modo, podemos estabelecer uma conexão entre este último parágrafo e as discussões em torno do futuro do trabalho. Essa ansiedade e medo de se tornar obsoleto conforme atividades outrora exercidas por seres humanos passam por um processo de automação não é novidade. Desde o surgimento do “cavalo-vapor”, isto é, desde a Primeira Revolução Industrial, as máquinas a vapor e o processo de modernização do mundo causava angústia nas pessoas que, à época, chegaram a criar um movimento de quebra das máquinas e que ficou conhecido como ludita.

Contudo, esse anseio diante das novidades não se dá apenas no âmbito tecnológico, mas também quando novas posturas culturais e sociais decorrem das inovações técnicas. Hoje usamos a dicotomia entre o moderno e o pós-moderno como uma forma de demarcar essa transição de uma era de certezas e de práticas maquínicas para um momento de fluidez e de compreensão que nos religa, mais uma vez, à Mãe Terra.

Em A Consumidora Consumida (1972), Vilém Flusser já tratava do consumo exacerbado, da grande e descabida produção de lixo e de um olhar sobre as coisas e sobre o mundo do ponto de vista masculino. A partir das figuras do côncavo e do convexo, respectivamente uma representação do arquétipo feminino e do masculino, o filósofo tcheco-brasileiro já tratava do nosso medo do vazio (horror vacui) e de como preenchemos esse vazio, essa angústia, a partir do consumo de produtos que não fazem sentido.

O etólogo, neurocientista e psiquiatra Boris Cyrulnik se tornou especialista em temas como a resiliência.


Em Do Sexto Sentido, Cyrulnik fala justamente sobre como a cultura nasce dessa lacuna entre a aflição e o afeto, que é por onde nos preenchemos com objetos de consumo, mas principalmente relatos, histórias, comunicação, arte e cultura. O etólogo fala sobre comportamentos no âmbito da alimentação, por exemplo, em que crianças e pessoas adultas têm o hábito de ingerir coisas, como concreto ou areia, de modo a preencher um vazio emocional enraizado desde a primeira infância e que se desdobra, por exemplo, em um comportamento de aceitação e passividade diante de um relacionamento abusivo durante a idade madura, já que não se quer retornar ao vazio. Do mesmo modo, Cyrulnik também fala sobre compulsões e distúrbios alimentares, como a anorexia e a bulimia, nas quais os pacientes não se baseiam tanto na ingestão de comida e no preenchimento desse vácuo, mas sim na tentativa de atingir o ideal de uma imagem — as imagens da cultura de consumo, por exemplo.

Por outro lado, Cyrulnik discute como a tecnologia teria feito o fazendeiro parar de cantar para o boi enquanto trabalha na roça, porque hoje ele possui máquinas que fazem esse serviço. Ou, ainda, o autor narra como nos transportes públicos usamos fones de ouvido que estipulam que não queremos conversar com ninguém, ao passo que em cidades menores e com menos acesso à tecnologia se notam costumes que tendem à interação social, conforme as pessoas partilhariam de um pedaço de pão, contam sobre suas vidas e ainda participariam de um jogo de cartas juntos.

A técnica, tal como a democracia, ao melhorar as atuações individuais, isola as pessoas: “Esquece-se, facilmente, aqueles que nos precederam e aqueles que nos irão seguir […]. Deste modo, não apenas a democracia faz esquecer a cada homem os antepassados mas esconde-lhe os descendentes e separa-os dos contemporâneos: leva-o, sem cessar, em direção a ele só, e ameaça encerrá-lo finalmente todo na solidão do seu próprio coração.”

Cyrulnik, no entanto, não tem como objetivo defender algum ponto de vista ou alguma opinião, mas sim manter a ambiguidade das informações que apresenta em seu livro ao abordar diferentes visões sobre o assunto. O autor comenta, por exemplo, sobre como, antigamente, mulheres menstruavam aos 12 e, ao longo de uma vida de mais ou menos 35 anos, ainda passavam por uma média de treze gestações. Isso significa que eram poucos os momentos em que essas mulheres tinham a possibilidade de experienciar a menstruação e a ovulação, sendo que esse é o mesmo mecanismo da pílula anticoncepcional, que se utiliza de hormônios para “enganar” o corpo feminino ao fingir uma gravidez.

Poster de incentivo ao controle de natalidade divulgado na China, em 1972

O anticoncepcional, então, fez com que as possibilidades para a vida de uma mulher se ampliassem para além da sua função materna. Foi justamente uma tecnologia, portanto, que possibilitou esse salto de domínio comportamental, mas também como uma nova forma de ter a representação de si: mulheres que podem escolher trabalhar fora de casa, ter ou não filhos e quando lhes for o momento escolhido. Isto é, a maternidade se torna um capítulo e não mais a história completa da vida das mulheres:

Uma rapariguinha, no momento em que a sua identidade sexual se constrói, deixa de se imaginar como uma mulher passiva na qual um homem plantará treze promessas de filhos que deverá trazer em si. Sonha o futuro como o relato de uma pessoa que só consagrará à maternidade um capítulo. O apoio técnico em redor do nascimento, a melhoria dos cuidados aos bebês pelas creches e pelos infantários, que, muitas vezes, fazem desabrochar mais do que muitos lares, a proteção social, que assegura uma melhor possibilidade de ação extrafamiliar, melhoram a personalização das mães e diminuem a necessidade do pai. Uma boa tecnologia durante os primeiros anos e um Estado bem organizado substituem os pais com vantagem. O lugar do homem junto das mães passa a ser o de um companheiro afetivo cuja aventura humana elas partilham. Já não é a autoridade de um pai que salva a família trabalhando, representa o Estado, cuja lei enuncia e aproveita, muitas vezes, para aí meter a sua. A evolução técnica e a melhoria social estruturam, em redor das crianças, campos sensoriais e significantes que as moldam de maneira totalmente diferente. Numa ou duas gerações, os tutores de desenvolvimento fizeram a revolução.

É talvez por conta dessas mudanças macrocósmicas que a tecnologia possa despertar a ansiedade e a angústia em nós, já que ela pode, justamente, romper com ciclos já estabelecidos, rotinas às quais já nos acostumamos e a verdades às quais já obedecemos. Mas se um simples cabresto já foi capaz de libertar uma parcela de homens e mulheres de sua condição escrava, é muito provável que também a robótica e as novas tecnologias exercerão um papel semelhante ao nos libertar dos últimos resquícios de profissões mecanicistas e repetitivas.

E a isso não se limitam apenas os trabalhos “chão de fábrica”, mas também no âmbito da criatividade que se mantém refreada por índices quantitativos como uma estratégia de monetização vazia de conteúdo e baseada no estímulo mecânico (cliques, visualizações, acessos etc). Se a cultura, portanto, se estabelece entre o vácuo da angústia e do afeto, nossa missão como comunicadores (e também como estudiosos do futuro), portanto, é engajar e qualificar a audiência para que esta esteja ciente dos processos de transformação, das novidades que estão ocorrendo e que podem ocasionar na transição de um modelo que se afasta, por exemplo, do consumo exacerbado dos anos 90 e 2000 para entrar em um momento de maior consciência do que realmente é necessário possuir e do que é possível acessar.

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