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Um ensaio acerca do poder das narrativas, capitalismo tardio e reflexões sobre o futuro
[…] Não muda o fato de que é tudo culpa de vocês. Os bancos, o governo, a recessão, os Estados Unidos, os extremismos.
Absolutamente tudo que deu errado é culpa de vocês. Cada um de nós. Podemos ficar aqui o dia todo culpando os outros. Culpamos a economia, culpamos a Europa. A oposição. O clima. E culpamos os grandes acontecimentos da História. Como tudo está fora de controle, como somos desprotegidos, pequenos e frágeis. Mas ainda é culpa nossa. Vocês sabem por quê. É a camiseta de cinco reais. Não conseguimos resistir. Nenhum de nós. Vemos uma camiseta de cinco reais e achamos uma pechincha, adoramos e compramos. Não por que é melhor, mas é uma boa camiseta para o inverno, para usar por baixo. Serve.
E o dono da loja ganha míseros vinte centavos pela camiseta. E um camponês, em um campo qualquer, ganha cinco centavos. E achamos que está bom. Todos nós. Damos nosso dinheiro e participamos desse sistema a vida toda. Começou a dar errado nos supermercados, quando substituíram as pessoas dos caixas pelos caixas automáticos. Quando apareceram, vocês protestaram? Escreveram cartas de reclamação? Compraram em outro lugar?

Vocês acharam ruim, mas se conformaram. E agora todas aquelas pessoas não existem mais. E nós deixamos isso acontecer. E eu acho que gostamos desses caixas. Queremos isso. Por que podemos passar, pegar nossas compras sem ter que olhar nos olhos daquela pessoa. A pessoa que ganha menos do que nós. Ela não existe mais, foi despedida. Muito bom.

Então, sim, a culpa é nossa. Este mundo fomos nós que construímos.

O quanto essa narrativa se parece com algo que você, de alguma maneira, já vivenciou — seja conversando com um amigo, lendo uma reportagem na internet ou vendo o noticiário da televisão — ao longo desse ano?

Em maio, a série “Years & Years” estreou em uma parceria entre a HBO e a BBC. Em pouco menos de 6 horas, acompanhamos a evolução da nossa sociedade através dos olhos da família britânica Lyons pelos próximos 15 anos. Simples assim.

Qualquer semelhança com a realidade atual não é mera coincidência.

A narrativa dada é intencionalmente parecida com um possível cenário futuro. Na sinfonia do mundo, é a política que nos dá o tom: Donald Trump foi reeleito presidente dos Estados Unidos; a Rússia invadiu a Ucrânia; a Grã-Bretanha saiu da União Européia; os refugiados estão cada vez mais presentes na vida cotidiana. Sob o ponto de vista da tecnologia, temas como os subempregos gerados a partir da emergência da Revolução 4.0 e a utilização de deepfake causados pelo fenômeno da pós-verdade são (re)lembrados a cada momento. Por fim, do ponto de vista humano, conseguimos ver questões como nossa sexualidade, identidade de gênero e a nossa relação com nossos filtros (tecnológicos e sociais) cada vez mais escancarados — e naturalizados.

É claro que existem problemas em sua produção: esta é claramente uma película eurocêntrica, onde quase não vemos referências ao Sul Global e aos países em desenvolvimento. Ouvimos sobre a China, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a Europa… mas não existe qualquer citação evidente da transformação que os países emergentes sofreram ao longo dos anos. Mas isso é papo para outro momento.

Quando criamos histórias, trazemos para o mundo possibilidades de futuro. A construção de novas narrativas permite com que nos tornemos atores e os autores dessa possibilidade de futuro. E essas narrativas tem um papel fundamental no futuro real.

Brit Marling sabe disso. Autora de Another Earth e The OA, ela é quem escreve os episódios e atua como personagem principal dessas narrativas. Em relação ao fato de utilizar a ficção científica como método de construção de futuros, ela disse, em seu Instagram:

Uma vez uma pessoa me perguntou num painel “por que você é tão obcecada com ficção científica?”. Eu não tinha percebido que eu era “obcecada” ou que a maioria das narrativas que eu escrevi até agora estavam dentro do gênero de ficção especulativa.

É difícil estar inspirada para escrever histórias sobre o mundo “real” quando você nunca se sentiu livre nele. Como uma mulher escrevendo personagens para mim e para outras mulheres, muitas vezes me pareceu que as estradas pavimentadas para viajar nas narrativas são limitadas. Talvez um dia eu serei evoluída o suficiente como escritora para pavimentar minhas próprias estradas na “realidade”, mas até hoje eu sempre me senti frustrada.

Eu posso escrever sobre algumas mulheres “no topo”, mas então eu estou perpetuando as mesmas hierarquias que nos oprimem (e apenas pedindo para jogarem a opressão para outros). Eu posso escrever sobre a grande maioria de mulheres na base da Economia, mas o poder de mover imagens e atores carismáticos geralmente glamouriza ou perpetua os muitos estereótipos que os filmes tem a esperança de criticar. Eu posso escrever sobre mulheres depreciativas que expõem as abundantes desigualdades de gênero para uma boa risada, mas aí […] estou, de alguma maneira, trocando minha humilhação pelo meu salário e a chance de ter meu lugar de fala.

[…] Nós imaginamos que o coletivo é mais forte que o individual. Nós imaginamos que não existe herói. Nós imaginamos que as árvores de São Francisco e um polvo gigante tinham vozes que pudéssemos entender e deveríamos escutar. Nós imaginamos humanos como uma espécie entre várias, e não necessariamente a mais esperta ou a mais evoluída. Nós imaginamos movimentos que uniram pessoas improváveis em salas, colocando-as em movimento, dispostas a arriscar a vulnerabilidade pela chance de entrar em outro mundo.

Entre as principais temáticas de The OA, estão as EQM (Experiências de Quase Morte), Realidades Paralelas e Expansão de Consciência. Conceitos que não são fáceis de entender nem de explicar. Tampouco vender.

O resultado? Cancelamento após a 2ª temporada, devido a uma baixa audiência. Abaixo, algumas capturas de tela interessantes que podem ser visualizadas ao longo das duas temporadas:

O mais interessante veio a seguir. As pessoas não aceitaram o fim da série. Começaram a se reunir, planejar e executar ações para que a Netflix — que possui os direitos da série — retomasse a produção. Em menos de 15 dias, foram arrecadados mais de 5.500 dólares para que fosse colocado um anúncio da Times Square com a hashtag #SaveTheOA. Grupos começaram a se encontrar e a ensaiar os “movimentos” existentes na série. Inúmeros flashmobs foram realizados ao redor do mundo. Assinaturas da Netflix estão sendo canceladas. Flores com cartas estão sendo enviadas para funcionários de cargos estratégicos da companhia.

Sobre todo essa agitação, Brit foi bem enfática:

Então, talvez, a essa hora tardia, nas terríveis circunstâncias das mudanças climáticas e em um fosso cada vez maior entre os “temos” e os “não-temos”, estamos centenas de anos atrasados em novas mitologias. Narrativas com modos de poder fora da violência e da dominação. Narrativas com objetivos de atuação humana fora da conquista e colonização. Narrativas que ilustram o poder do protagonismo coletivo, ou acabam com o protagonismo inteiramente para ilustrar como ocorrem mudanças duradouras e reais — pessoas comuns, muitas vezes forasteiras, muitas vezes marginalizadas — organizando-se anonimamente, trabalhando juntas, trabalhando juntos, alcançando pequenos feitos um dia por vez, que eventualmente irá se tornar um movimento.

Vocês quebraram o molde da contação de histórias. Vocês construíram algo muito mais bonito que nós, pois é em tempo real, na vida real, com pessoas reais. É rizomático — constantemente redefinindo o objetivo coletivo conforme cresce. É elíptico — não tem início nem final real. E certamente não tem um único herói.

Outro dia Zal (o outro autor de The OA) e eu paramos para oferecer uma garrafa de água e comida a uma mulher jovem que estava protestando o cancelamento da série em uma esquina de Hollywood. Quando estávamos saindo, ela disse “você sabe, o que eu realmente estou protestando é pelo capitalismo tardio”. E então ela disse algo que eu não consegui esquecer desde então: “Algoritmos não são tão espertos quanto nós. Eles não podem dar conta do amor”.

É uma provocação: estamos inseridos na narrativa do capitalismo tardio, onde uma pessoa que trabalha como entregador de uma rede de aplicativos (que ele não tem vínculo empregatício) aluga uma bicicleta (que não é dele, mas é uma ferramenta necessária ao trabalho proposto) e entrega uma comida de um restaurante (que ele não trabalha) para uma pessoa que não a contratou (e que nem a conhece). Esse trabalhador não possui direitos trabalhistas, carteira de trabalho ou vínculo empregatício com ninguém. É o subemprego do início deste texto. Hoje é uma pessoa que você não conhece. Amanhã pode ser sua prima. Ou seu pai. Ou seu amigo. Ou você.

Years & Years é sobre uma narrativa mais do que previsível. The OA é sobre a possibilidade de sermos protagonistas — não necessariamente individuais — das possíveis narrativas que queremos construir.

Não é sobre as consequências do avanço tecnológico em nossas vidas. É sobre modificarmos a narrativa vigente. Como podemos modificar isso? Investigar a maneira com que lidamos com o consumo — experiências, arte, produtos, serviços — pode ser um bom começo.

De onde veio a última roupa que você adquiriu? Qual a origem dos itens que você comprou na sua última ida ao mercado? Quando foi a última vez que você ajudou um conhecido ao comprar algum produto que ele produziu?

Pode até ser meio clichê, mas no fim, “não é sobre ter as melhores respostas, mas sobre fazer melhores perguntas”. Seja na esfera política, tecnológica ou humana, para qual caminho queremos (ou gostaríamos de) seguir?

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