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Ao conquistarmos qualidade de vida a partir de suportes tecnológicos como a renda básica universal promovida pela automação da indústria, será que importaria mais quantos anos podemos viver ou quão bem podemos aproveitar nosso tempo de vida “natural”?

Publicado em 1953, o livro “Fim da Infância” de Arthur C. Clarke traz uma visão dos rumos do planeta caso uma raça alienígena, ali apelidada de Overlords ou Senhores Supremos, como traduzido para o português, estabelece uma série de regras de conduta para que os seres humanos corrijam seu curso que, em última instância, os levariam para a extinção. Era um momento pós-Segunda Guerra Mundial e início da era nuclear, na qual a iminência de uma bomba fazia parte dos medos e ameaças do cotidiano.

O início do livro se foca especialmente na questão da conquista da utopia, isto é, o perfeito equilíbrio social, econômico e político no planeta Terra, porém, nesse caso, esse “milagre” foi conquistado graças à ajuda de seres extraterrestres. Mais do que tratar do motivo e das consequências dessa intervenção alienígena, gostaria de resgatar alguns elementos descritivos do que Clarke, no começo dos anos 1950, imaginou que seria uma sociedade equilibrada e perfeita. Dentre os pontos mais altos, alguns a serem listados são:

  1. O conhecimento científico se tornou tão disseminado, que as religiões deixaram de existir. Não eram mais necessárias e nem faziam mais sentido, dentro do contexto criado pelo autor.
  2. A criação de carros voadores autônomos fez com que as distâncias do mundo se encurtassem ainda mais e alguns carros chegavam a ser até casas voadoras, totalmente equipadas.
  3. A automação fez com que fosse possível de se produzir uma riqueza suficiente para ser redistribuída às pessoas, de modo que ninguém mais precisaria trabalhar por questão de sobrevivência, apenas em coisas que fazem sentido e são agradáveis.
  4. Como resposta ao controle dos Senhores Supremos que, apesar de tudo, não demonstravam violência nem mesmo contra seus opositores e críticos, foi criada uma comunidade em ilhas que foram batizadas como Nova Atenas e Esparta. Enquanto o resto do mundo havia se embriagado com o consumo de entretenimento e extinguido sua vontade de criar ou curiosidade científica, ali se perseguiam experimentações na arte e na ciência.
  5. Mesmo sendo desconhecidos os motivos ou até mesmo a aparência desses Senhores Supremos, a maioria dos seres humanos não contestaram: ter conquistado felicidade e equilíbrio era o suficiente.

Clarke foi um físico e matemático conhecido por suas obras de ficção científica e por sua visão muito à frente de seu tempo, o que o fez um exímio futurólogo capaz de “prever” nos anos 1970 o nosso presente de computadores e celulares portáteis. Em “Fim da Infância”, o autor cria um contexto complexo no qual os Senhores Supremos atuam de modo estratégico e até mesmo sobre-humano, uma vez que não se deixam influenciar por erros e vícios da espécie. No entanto, uma das visões mais impressionantes de Clarke foi a forma como este descreveu uma sociedade que hoje vislumbramos a partir da renovação do conceito de Renda Básica Universal sustentada pela crescente automação de processos de produção. Nas palavras do escritor, neste contexto,

“…a produção tornar-se, em grande medida, automática: as fábricas-robôs despejavam bens de consumo em fluxos incessantes tais que todas as necessidades básicas da vida eram, para todos os efeitos, gratuitas. Os homens trabalhavam pensando nos artigos de luxo que desejavam. Ou, simplesmente, não trabalhavam.
Era um Mundo Unificado. Os velhos nomes dos velhos países ainda eram usados, mas não postavam de divisões postais convenientes. Não havia ninguém na Terra que não soubesse inglês, que não soubesse ler, que não tivesse acesso a um aparelho de televisão, que não pudesse visitar o outro lado do planeta em vinte quatro horas.
O crime praticamente desaparecera. Tornar-se tanto desnecessário como impossível. Quando não faltava nada a ninguém, não há motivo para roubar. Além disso, todos os criminosos em potencial sabiam que não havia como escapar à vigilância dos Senhores Supremos. Nos primeiros tempos de seu governo, eles haviam atuado de modo tão eficaz em prol da lei e da ordem que a lição nunca fora esquecida.
Os crimes passionais, embora não realmente extintos, eram quase desconhecidos. Agora que tantos de seus problemas psicológicos haviam sido removidos, a humanidade era muito mais sensata e menos irracional. O que, em eras passadas, seria chamado de depravação, agora não passava de excentricidade… ou, no pior caso, maus modos.”

Em seguida, Clarke ainda comenta que essas mudanças surtiram na desaceleração do ritmo das pessoas, algo tão característico no século XX. “A vida era mais pausada do que fora por gerações. Por conseguinte, para uns poucos tinha menos sabor, mas, para a maioria, tinha mais placidez. O homem ocidental reaprendera algo que o resto do mundo nunca esquecera: que não havia nada de pecaminoso no prazer, desde que não degenerasse em mera indolência.” Em outras palavras, o que o autor descreve é uma mudança tão grande na qualidade de vida das pessoas que isso impactou diretamente no funcionamento da sociedade — daí a extinção dos crimes ou mesmo das religiões por conta da “elevação do padrão educacional da humanidade”.

Apesar de o autor trazer desdobramentos ainda carregados de uma certa pretensão sobre a superioridade do pensamento cientificista ou mesmo do ponto de vista colonizador (todos falam em inglês, comparações com a maneira como a Inglaterra colonizou a Índia etc), é interessante ver como Clarke antecipa algumas das premissas de defesa da Renda Básica Universal através da automação da indústria como uma forma de emancipar o homem de problemas como saúde mental, pobreza e criminalidade, ao mesmo tempo em que também insere um fator de inspeção que, neste caso, seriam os alienígenas, mas que hoje se defende também a partir de tecnologias de monitoramento como internet das coisas, inteligência artificial e blockchain como métodos de se assegurar a regularização de processos.

No entanto, é especialmente no comentário de Clarke de que essa mudança tecnológica trouxe uma mudança na maneira como nosso tempo seria desacelerado, então possibilitando as pessoas de terem uma melhor qualidade de vida. Durante a minha leitura desse trecho, me veio à cabeça justamente o questionamento de pesquisadores da extensão humana, como é o caso de Aubrey De Grey, que tratam do problema do “tédio” mediante uma vida estendida para além dos 150 anos. Talvez, o problema maior de se viver mais de 150 anos ou, em última instância, indefinidamente, não está na possibilidade de esgotar todas as possibilidades de experiências e vivências no mundo, mas sim em quanto tempo se demoraria para que uma pessoa realmente pudesse se emancipar para viver uma vida plena ad infinitum?

Parece óbvio, mas nem sempre isso passa pela cabeça dos defensores da extensão da vida. Quer dizer, já existem diferentes pontos de crítica sobre como esse tipo de procedimento e conquista só seria possível, a princípio, para pessoas de grande poder aquisitivo — isto é, pessoas que já vivem em um padrão mais saudável e sustentável financeiramente. Em outras palavras, ricos não só seriam capazes de prolongar suas vidas por terem recursos financeiros para realizar esses procedimentos como eles já possuem qualidade de vida antes mesmo de conquistarem a imortalidade. No caso dos pobres, além de já viverem em condições precárias, extender a vida significaria necessariamente se emancipar desse cenário ou então apenas tornar a jornada ainda maior — a exemplo da maneira como a longevidade também faz com que questões como a previdência sejam revistas para que o trabalhador contribua por mais tempo ainda.

É claro, se conseguirmos realmente atingir um ponto de automação em que as deficiências do desemprego sejam supridas pela redistribuição de lucro, é possível que tenhamos uma melhoria na qualidade de vida, mas a grande questão aqui é como nossa vontade de viver por mais tempo ou de sequer morrer também tenha origem na impossibilidade de termos plenitude ao longo da nossa vida devido aos compromissos que temos. Isto é, gastamos mais da metade da vida estudando em escolas e faculdades até encontrarmos um emprego que não necessariamente nos proverá com fundos suficientes para que possamos viver com qualidade e que possamos garantir uma velhice plena. Ao tentarmos extender a vida, tentamos também aumentar o prazo para conquistar esse ponto de equilíbrio que, no entanto, nunca chega — menos por nosso tempo de vida e mais pela lógica da nossa sociedade.

A torcida, por fim, é que cheguemos a um ponto em que consigamos não apenas estabelecer uma automação e redistribuição de lucros justa, mas que também não caiamos na tentação de adaptar esse novo contexto de acordo com as premissas antigas. O fato de, por ventura, termos o suficiente para sobreviver em equilíbrio não garante que estratégias de estímulo ao consumo e à competição não continuem existindo — assim como ocorreu logo após a primeira revolução industrial, o surgimento da propaganda e as estratégias de liberação de crédito para o estímulo de crescimento do mercado e do consumo.

Ao vislumbrarmos esses cenários que nos chegam já prontos através da ficção científica, temos espaço e tempo para poder refletir sobre nosso próprio contexto, mais de cinquenta anos depois de a publicação ter chegado às livrarias e quais são os elementos que dali podem ser aprimorados, reconsiderados ou suprimidos. E é nesse sentido que essa visão perigosa, mas não menos sedutora, da utopia de Clarke em “O Fim da Infância” deixa um alerta para outras questões que não o “tédio” ou a mera equação econômica dos recursos e da realocação na sociedade, mas sim da maneira como lidaremos com essa mudança estrutural: a nosso favor ou contra?

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