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Modelos e influenciadoras digitais criadas em programas de modelagem 3D têm ganhado cada vez mais espaço na publicidade, mas o que isso pode significar para nós, seres humanos?

Das supermodelos dos anos 90 até os influenciadores digitais, tivemos uma mudança do sentido de celebridade a partir da chegada de redes sociais como o Snapchat e Instagram. Ainda que alguns nomes tenham primeiro conquistado sua fama em mídias tradicionais, como a televisão, foi na internet e nas redes sociais que celebridades como Kylie Jenner firmaram sua audiência e multiplicaram seus produtos e negócios ao atingir o público dos digital natives (nativos digitais, pessoas nascidas entre 1988 e 1998).

Mas apesar de ser uma angel da Victoria Secret e participar de uma fashion week ainda ser algo de grande status entre modelos, são as influenciadoras digitais de beleza e de moda que também ganham espaço em campanhas publicitárias como representantes de uma nova onda de celebridades mais acessíveis e mais “reais” se comparadas às figuras hollywoodianas e às top models. Na realidade, hoje já sabemos que são principalmente os micro influenciadores que vêm se destacando em detrimento aos influenciadores macro justamente por oferecerem esse contato mais próximo e pessoal com seus seguidores e fãs.

No entanto, enquanto uma pessoa tem seus limites físicos e mentais, contando tanto com sua aparência quanto sua possibilidade de interação e de presença, são pessoas virtuais e artificiais que podem estar tomando esse espaço outrora reservado às celebridades e aos ídolos. Esse movimento se dá com especial força no Japão, país no qual a cultura dos ídolos (Idoru) tem uma tradição que traça desde o começo dos anos 1970, quando o filme Cherchez l’idole (1963) chegou ao país. A premissa da obra, então, passou a ser aplicada a qualquer atriz ou ator, cantor ou cantora de aparência meiga — especialmente aqueles com idade entre 14 e 16 anos.

Foi nessa época que Momoe Yamaguchi se tornou uma grande celebridade nacional até se casar e se aposentar nos anos 1980. Desde então, os anos 80 passaram a ser conhecidos como os anos dourados dos ídolos japoneses, sendo que é estimado que cerca de 40 a 50 novos ídolos são fabricados a cada ano, uma vez que existem verdadeiras agências de talento que são responsáveis por fabricar essas celebridades. No entanto, para ser um idoru, não basta ter uma aparência agradável, mas existem ideais e expectativas que fazem com que essas celebridades não possam se casar ou ter um relacionamento, por exemplo.

E esses idorus estão presentes até hoje em campanhas publicitárias, novelas, filmes, shows, revistas, pôsteres, bem como shows e outros eventos dedicados a fãs. Com isso, essas celebridades acabam se tornando uma peça fundamental na mídia e na economia japonesa: estima-se que cerca de 50 a 70% da publicidade produzida no Japão contém um ídolo. Mas apesar de esses comerciais serem feitos para divulgar um produto, eles também acabam servindo de divulgação para o próprio ídolo, bem como estes são escolhidos de acordo com a mensagem e a identidade da marca a ser anunciada.

Contudo, desde 2007, são os ídolos virtuais que têm conquistado espaço na cultura pop japonesa e extrapolado também para o ocidente. É o caso de Hatsune Miku, uma personagem que chega a lucrar mais de US$535 milhões em vendas de produtos e ingressos para seus shows que contam com uma holografia como forma de sua representação presencial. Essa tendência, aliás, também já chegou ao ocidente e foi, mais uma vez, o poder das redes sociais que tornou a influência dessas personagens virtuais ainda maior.

Esse é o caso de influencers virtuais como Lil Miquela e Shudu Gram, que é considerada a primeira supermodel virtual internacional do mundo. Recentemente, Shudu se tornou personagem de uma campanha da grife Fenty Beauty, liderada pela cantora Rihanna, enquanto que Lil Miquela, que conta com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, vende seus próprios produtos e também estrela campanhas, como a publicada na edição de abril 2018 da revista Highsnobiety.

Nas fotos, Miquela veste roupas de grifes como BALENCIAGA e Moncler, provando ser possível de se utilizar personagens virtuais como modelos e novas referências de influência na contemporaneidade. Em um longo ensaiopublicado no site da Highsnobiety, Aleks Eror analisa todo o impacto gerado pela influencer virtual e como seu sucesso acabou acontecendo em um momento no qual tantas pessoas têm questionado as redes sociais e os conteúdos que são ali publicados. Em suas palavras:

“É interessante que Lil Miquela surgiu quase que no mesmo momento em que muitos de nós começamos a perceber como as redes sociais podem ser usadas para subverter o processo democrático e não mais ignoramos o estrago que a internet tem feito nas nossas vidas. Assim como as fake news, os influenciadores têm a habilidade de confundir nossa percepção sobre a realidade, então podemos dizer que Miquela corre o risco de ser parte desse problema, se é que já não é. Quando essa pergunta foi feita à sua criadora humana, a resposta foi irremediavelmente otimista: “A internet é infinitamente poderosa, e o poder tem sido aplicado de várias formas. É como se não pudéssemos pôr o gênio de volta na lâmpada, então temos que aprender como usar essas ferramentas de forma positiva. Eu uso minha plataforma para levantar fundos para importantes organizações em Los Angeles e eu vi que os resultados incluíram vidas que se modificaram. Acho que a única chance que temos é de coletivamente ensinar nossos entes queridos a como pensar criticamente e identificar informações erradas. Acredito que podemos manifestar a mudança que queremos ver, e a internet pode ser parte disso.”

Por outro lado, outras análises apontam para um desserviço prestado por essas influenciadoras virtuais. Em artigo para o site da Dazed Digital, Dominic Cadogan e Kemi Alemoru questionam se essas garotas virtuais não estariam “roubando” o emprego de modelos negras e latinas na indústria da moda. Nas palavras dos autores, “como se os padrões de beleza já não fossem altos o suficiente, agora há modelos super perfeitas que não existem de verdade — ainda que elas tenham personalidade e sua própria conta nas redes sociais.”

Apesar disso, Dominic acredita que qualquer representação é válida, bem como essas modelos virtuais, em última instância, não seguem as regras da genética ou da realidade humana: “elas podem tomar qualquer forma que seus criadores quiserem. Para mim, isso é incrível.” Se esses criadores, porém, escolheram criar modelos negras e latinas em vez de seguir o ideal de beleza europeu, então não seria um motivo de comemoração?

Para Kemi, não. Em uma entrevista para a Harper’s Bazaar, o criador dos modelos virtuais Shudu e Nfon, o fotógrafo Cameron-James Wilson, disse que Shudu é uma “obra de arte”: “Ela não é uma modelo real, infelizmente, mas ela representa muitas das modelos reais de hoje. Há um grande movimento em prol das modelos de pele escura, então ela as representa e é inspirada por elas.” Kemi, no entanto, afirma que o que Wilson está tentando dizer é que “negros estão na moda agora, não porque a indústria quer melhorar seu chocante recorde de diversidade, mas simplesmente porque as pessoas amam a estética negra. É a objetificação em sua forma mais pura. Agora, marcas que emprestam a pele cheia de melanina de Shudu e as características esculturais de Nfon, bem como a divertida persona online de Miquela fazem isso sem a dificuldade de quebrar o teto de vidro de fazer com que pessoas de cor possam atingir o topo.”

Por outro lado, enquanto personagens virtuais são criadas à imagem da atual concepção de padrão de beleza, são os apelos de feministas e uma maior representatividade do público feminino que fazem com que personagens femininas sejam desenhadas de forma mais realista e menos programada para atender às aspirações do público masculino. Assim como Lara Croft ganhou uma repaginada em sua representação nos jogos e no cinema, também as ginoides (robôs femininos realistas) podem passar a ter uma nova lógica de design, já que estas, historicamente, são criadas a partir da figura de celebridades da cultura pop e, portanto, a partir do padrão de beleza vigente na mídia.

Como afirmado por Hiroshi Ishiguro em sua palestra na Japan House em São Paulo, cada vez mais esses robôs realistas têm tomado o espaço dos ídolos japoneses — como já é o caso da ginoide Erica, criada pelo roboticista. Para ele, uma vez que essas ginoides podem ser criadas para ter uma aparência e performance infalíveis, talvez essas máquinas possam, um dia, acabar facilitando uma transição para uma época em que deixaremos os ideais de beleza inatingíveis reservados apenas às máquinas, então nos libertando das exigências estéticas que tanto causam ansiedade por serem elas mesmas somente atingíveis em um âmbito do digital, no simulacro das personagens virtuais.

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