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Para além de prometer um melhor e mais rápido diagnóstico de doenças como o Parkinson, o dispositivo também pode, no futuro, armazenar memórias e transferir pensamentos, o que anima os ideais transhumanistas.

Na semana passada, fui convidada a trazer uma reflexão sobre a Masterclass ministrada pelo futurista Jason Silva na plataforma Oli da Aerolito. Dentre os assuntos trazidos por Silva, estava a questão do transhumanismo e da possibilidade de nos tornarmos “heróis” na realidade virtual. Essa ideia foi especialmente popular ao longo do fim dos anos 1980 e década de 90, quando os chamados tecnotimistas acreditavam que poderíamos nos tornar “anjos” no ciberespaço — assim como descrito por Margaret Wertheim em seu livro The Pearly Gates of Cyberspace (2001).

Uma das principais premissas da ficção científica e do transhumanismo àquela época era a possibilidade de transferir a mente humana para uma máquina, um conceito especialmente explorado pelo neurocientista Hans Moravec em seu livro Mind Children. Desde então, novos projetos como a 2045 Initiative, Carbon Copies ou mesmo os mindfiles de Martine Rothblatt miram na possibilidade de transformarmos nossos pensamentos e memórias em informação a ser armazenada em dispositivos eletrônicos ou, como agora se especula, em dispositivos quânticos.

No mês passado, pesquisadores da Purdue University e Argonne National Laboratory descobriram a possibilidade de usar um material quântico como uma forma de traduzir e entender melhor os processos cerebrais.Segundo o estudo publicado na Nature Communications, diferente de um dispositivo eletrônico, que funciona a partir de elétrons, o cérebro funciona a partir de íons. Agora, no que diz respeito a um material quântico em comparação a um material eletrônico é que, no caso do primeiro, suas propriedades não podem ser explicadas pela física clássica, o que os torna especiais diante de outros materiais eletrônicos mais conhecidos, como é o caso do silício, por exemplo.

Os primeiros testes já realizados pelos pesquisadores envolveram duas moléculas: glucose (um açúcar essencial para a produção de energia) e a dopamina (um mensageiro químico que regula o movimento, as respostas emocionais e a memória). Como a dopamina é pouco presente no cérebro e ainda menor no caso de pacientes com Parkinson, a detecção dessa substância é particularmente difícil. No entanto, quanto antes os níveis de dopamina são detectados, mais promissor é o tratamento da doença. “Esse material quântico é cerca de nove vezes mais sensível à dopamina do que os métodos que nós usamos hoje em modelos animais”, disse Alexander Chubykin, professor assistente de ciências biológicas no Purdue Institute for Integrative Neuroscience.

Outra vantagem descoberta nesses testes foi que que esse material não necessitou de uma fonte de energia para poder funcionar, portanto funcionando com uma baixa demanda, o que significa que ele poderia ser usado inclusive em ambientes ainda não explorados. Mais a frente ainda está a possibilidade de usar essa mesma premissa para armazenar e transferir memórias e pensamentos do cérebro. “Imagine colocar um dispositivo eletrônico no cérebro, de modo que quando as funções naturais do cérebro começarem a deteriorar, uma pessoa poderia ainda recuperar suas memórias através desse dispositivo”, argumentou Shriram Ramanathan, professor de engenharia dos materiais da Purdue.

Isso nos traz, portanto, a discussões como a que Martine Rothblatt teve com Ray Kurzweil em uma entrevista disponibilizada no YouTube. Como Rothblatt trabalha no desenvolvimento dos chamados mindfiles, isto é, programas capazes de emular o comportamento de uma pessoa e funcionar, em última instância, como um substituto virtual, Kurzweil questiona se uma máquina capaz de emular uma pessoa ainda viva não seria só uma inteligência artificial diferente do próprio indivíduo. Rothblatt diz que sim, mas que sua ideia de extensão da vida através de tecnologias cibernéticas está mais concentrada em um processo progressivo de transformação do corpo humano, biológico, até um novo estado cibernético.

Como isso se daria, no entanto, é algo que vem sendo explorado, por exemplo, na 2045 Initiative, que propõe, em primeira instância, o comando de corpos robóticos a partir de interfaces cérebro-máquina e, depois, a transferência do cérebro humano para um corpo robótico. No entanto, existem diferentes vozes na neurociência que contrariam a hipótese de que o “Eu” estaria concentrado apenas no cérebro — ou, ainda, que sequer existe um “Eu” ou que talvez esse “Eu”. Ainda mais polêmica e complexa é a hipótese do psiquiatra Dan Siegel, conforme defendida em seu livro Mind: A Journey to the Heart of Being Human, de que o “Eu” não está nem no cérebro e nem no corpo, mas que nossa mente é “um processo emergente de autorganização, tanto corporificada quanto relacional, que regula a energia e a informação que flui dentro e entre nós.”

Como disse Harari, ainda nos falta resolver esse pequeno problema da consciência, mas depois disso, teremos uma verdadeira virada ontológica — título que dei a um conto de ficção científica publicado na coletânea 2084: Mundos Cyberpunks (disponível em e-book e impresso), no qual justamente exploro, por meio da especulação, como seria essa nova humanidade depois de descobrirmos o que é a consciência e, com isso, também entendemos melhor a existência robótica e sua vontade de ter uma vivência corpórea, isto é, um hardware para seu software.

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