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Para a pesquisadora Marina Adshade, a tecnologia dos sexbots poderá mudar o conceito de casamento ao desvincular pela segunda vez na história da humanidade a relação entre o matrimônio e o acesso ao sexo.

Em um texto anterior, havia endereçado a questão dos robôs sexuais e, em específico, a majoritária presença de robôs realistas que imitam a forma feminina e reproduzem papéis sociais e estereótipos de gênero em sua confecção. Mais recentemente, no entanto, Marina Adshade publicou no site Slate uma análise sobre como robôs sexuais, na verdade, podem tornar casamentos mais fortes do que nunca ao “terceirizarem” as necessidades sexuais do casal.

Sua análise parte de um artigo disponível no livro Robot Sex: Social and Ethical Implications publicado pela MIT Press, no qual a pesquisadora aponta para o fato de que é muito difícil de se prever uma mudança social de forma correta a partir dos desenvolvimentos tecnológicos. Como exemplo, Adshade comenta que não é surpreendente pensar que, com um maior aprimoramento de tecnologias de controle de natalidade, a sociedade se tornasse mais sexualmente permissiva. Por outro lado, será que alguém realmente conseguiria prever que permitir que mulheres tivessem mais controle sobre sua fertilidade também levaria a um dramático crescimento de mulheres que engravidam enquanto solteiras, justamente por conta de as regras morais em torno da sexualidade feminina terem se tornado mais liberais?

De forma semelhante, Adshade também aponta para o curioso fato de que, apesar de novos eletrodomésticos poderem ter sido pensados como uma forma de facilitar a vida doméstica das mulheres, o que aconteceu foi que a criação do microondas acabou influenciando numa maior aceitação de casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Claro que, tratando-se dos anos 70, essa mudança também muito teve a ver com o próprio clima cultural e ideológico de maior liberdade e defesa do amor como resistência ao contexto de guerra. No entanto, Adshade procura reforçar essa comparação para dizer como certas inovações tecnológicas podem levar a consequências não pensadas e talvez até não relacionadas à primeira vista — e o mesmo se deve esperar para a chegada dos sexbots.

Por outro lado, há alguns elementos mais fáceis de serem antecipados, como é o caso de se esperar por uma maior quantidade de jovens adultos que preferirão ficar solteiros ao ter suas necessidades sexuais atendidas por robôs — no Japão, por exemplo, já há um grande número de jovens de até 30 anos que nunca fez sexo, sendo um dos motivos a falta de autoconfiança. Mas como as mudanças sociais são orgânicas, outras adaptações de normas culturais ficam mais difíceis de se compreender, ainda que esse tema não seja exatamente novidade para os pesquisadores.

“Novas tecnologias transformaram completamente o comportamento sexual e as normas matrimoniais ao longo da segunda metade do século 20. Apesar de essas previsões terem sido feitas muito a partir da sorte, nós temos décadas de mudanças sociais induzidas pela tecnologia para guiar nossas previsões do futuro de um mundo confrontado por um acesso massivo a robôs sexuais.”

Para Adshade, o próprio fato de que casamentos sempre evoluíram ao lado dos desenvolvimentos tecnológicos é uma base forte para se pensar essa nova era povoada por sexbots. Entre meados de 1700 e começo dos anos 2000, a função do casamento entre um homem e uma mulher era predominantemente uma questão de eficiência: no caso dos homens, produção de bens de consumo e serviços, e as mulheres com serviços e produtos reservados ao ambiente doméstico.

Essa designação também tem a ver com o fato de que, historicamente, os salários destinados aos maridos sempre foram maiores do que aqueles direcionados às esposas. No entanto, a partir do fim do século 19, o funcionamento dos casamentos começou a mudar conforme a eletricidade adaptada aos objetos domésticos fez com que o trabalho das mulheres pedisse por menos tempo de dedicação. A isso também se soma a entrada de mais objetos tecnológicos no ambiente de trabalho, o que facilitou na diminuição das diferenças de salário entre homens e mulheres.

Entre 1890 e 1940, a quantidade de mulheres trabalhando fora de casa triplicou, sendo que, ao longo do século passado, esse número continuou crescendo conforme mais tecnologias passaram a substituir o serviço das mulheres em suas casas. No início dos anos 70, foi com a chegada dos fornos microondas e comidas congeladas que as famílias obtiveram uma alternativa às refeições, o que facilitava na jornada de trabalho e permitia que as mulheres pudessem trabalhar fora de casa, desprendendo-se dessa tarefa.

“Como um resultado não intencional dessas novas tecnologias, os casamentos pararam de ser uma questão de eficiência na produção de bens de consumo e começou a ser sobre outra coisa bem próximo à virada para o século 20: companhia, amor e sexo. O casamento deixou de ser sobre duas pessoas se unindo porque elas eram muito diferentes uma da outra em termos de habilidade de produção e passou a ser sobre duas pessoas se unindo porque eram muito similares entre si. Assim ficou mais fácil de as sociedades verem (embora muito gradualmente) a irrelevância de regras que proibiam casamentos entre pessoas do mesmo gênero.”

Tendo em vista essas mudanças decorrentes de tecnologias desenvolvidas ao longo da história, Adshade especula que a chegada dos sexbots pode eliminar a associação entre intimidade sexual e casamento, só que de forma a tornar a qualidade dos casamentos muito melhor em linhas gerais. Para a pesquisadora, há aqueles que defendam que homens só “aceitam o peso do casamento” porque é uma forma mais fácil de ter relações sexuais. No entanto, se esses homens têm facilidade para encontrar sexo em qualquer outro lugar, então não haveria motivo para se casar.

É aí que são encaixados os argumentos em torno dos robôs sexuais, de forma muito semelhante em relação ao que se dizia com relação à camisinha, inventada em 1912, e o DIU, em 1909. No entanto, apesar de esses objetos terem ajudado no controle de natalidade e, por isso, também terem proporcionado uma maior liberdade sexual, o efeito colateral foi uma crise de doenças sexualmente transmissíveis, em especial a sífilis.

“A revista Cosmopolitan publicou à época um texto escrito por John B. Watson que questionava se homens iriam se casar daqui a 50 anos. A resposta de Watson foi um grande não ao escrever que “nós não queremos ajudantes mais, queremos parceiras de diversão.” Comentadores sociais apontaram para o fato de que as tecnologias de controle de natalidade poderiam destruir o casamento ao remover os incentivos às mulheres em se manterem castas e as encorajarem a inundar o mercado com sexo não-matrimonial. Os homens não teriam nenhum incentivo para se casar e as mulheres, cuja qualidade apenas dizia respeito à sexualidade, seriam destituídas.”

Mas entre as décadas de 1920 e 1930, essas preocupações acabaram se mostrando infundadas porque as pessoas continuaram querendo se casar — na realidade, houve ainda mais casamentos do que nas décadas anteriores. Naquele momento, aponta Adshade, o que se comentava era o fato de os contraceptivos estarem mudando a natureza dos casamentos em si. Se, no passado, as mulheres apenas sucumbiam às necessidades sexuais de seus maridos com a finalidade de ter filhos, a chegada dos anticoncepcionais desvinculou esses dois fatores e “forçou” as mulheres a assumirem o gosto pelas relações íntimas com seus parceiros. Foi o que também apontou o comentador social Walter Lippman em seu texto Preface to Morals (1929): “A partir do inevitável processo de adoção dos contraceptivos, maridos e esposas passaram a ter convicção de que eles não precisam ter vergonha de seu desejo um pelo outro.”

“Essa mudança tecnológica — dos primeiros anticoncepcionais — alterou a maneira como a sociedade via o casamento e, mais importante, a sexualidade feminina. Novos e melhores contraceptivos na segunda metade do século apenas ajudaram a firmar o entendimento da sociedade de que mulheres são seres sexuais e têm tanto direito de receber gratificações sexuais quanto os homens em seus relacionamentos. Essa mudança de comportamento levou à convicção de que o propósito do casamento era a troca do acesso ao sexo por segurança financeira. Pela primeira vez na história, a intimidade sexual e o casamento eram vistos como intrinsecamente conectados.
Essa mudança no propósito do casamento também foi encorajada por um secundário e não proposital efeito do acesso aos contraceptivos — o aumento da independência financeira feminina. Munidas com a segurança de que elas poderiam limitar o número de crianças que poderiam manter, as mulheres dos anos 70 e 80 aumentaram seus investimentos em educação superior e sua participação no mercado de trabalho. Graças ao controle de natalidade, mulheres, em sua maioria, não mais dependiam do casamento para obter sua segurança financeira.”

Mas, ainda assim, mesmo com todas essas questões financeiras e familiares tendo sido, em parte, resolvidas pelo advento dos métodos contraceptivos, as pessoas continuam se casando. Uma pesquisa realizada em 2012 pelo Pew Research Center mostrou, por exemplo, que 81% dos homens e 86% das mulheres acima de 45 anos já foram casados em algum momento de suas vidas. O número é menor se comparado à porcentagem de pessoas casadas nos anos 1960, mas, mesmo assim, não faz com que acreditemos que o casamento realmente deixou de ser algo buscado pelas pessoas.

Para Adshade, continuamos nos casando porque, para além da companhia que essa união oferece, o casamento continua sendo “a maneira mais fácil de organizar famílias, de modo que se minimiza os custos da produção doméstica. As pessoas podem viver sozinhas e até mesmo terem crianças sem o apoio de um parceiro, as o casamento ainda é uma forma mais barata de ter uma família, já que permite a divisão de trabalho e tarefas domésticas. E hoje, graças a esse legado da tecnologia contraceptiva, nós nos casamos porque ambos os parceiros têm um acesso ao sexo relativamente fácil.”

Mas diante da chegada dos sexbots que poderão fornecer sexo a custos baixos e com ainda mais facilidade do que o sexo no casamento, como ficam as uniões? A pesquisadora vê que uma das possibilidades é a reversão do que aconteceu no século passado, que foi responsável por ligar casamento à intimidade sexual, sendo que, para o futuro, o casamento voltaria a ser visto como uma forma de se obter uma unidade doméstica produtiva.

“Aqueles que temem que os sexbots irão ter um impacto negativo sobre os casamentos vêem essa tecnologia como um substituto do acesso ao sexo no casamento. Se eles estiverem certos, a queda do preço de acesso ao sexo fora do casamento irá diminuir a demanda por acesso sexual no casamento, e os casamentos irão diminuir. Por outro lado, é muito fácil de se argumentar dizendo que o acesso ao sexo no casamento e a produção doméstica são complementos para o consumo — em outras palavras, bens de consumo e serviços são frequentemente consumidos juntos, como chá e açúcar, ou plano de telefonia móvel e aplicativos de celular. Nesse caso, então, a teoria do consumidor prevê que um acesso mais fácil aos sexbots irá demandar por complementos no consumo, assim como a queda do preço dos planos de telefonia móvel iria provavelmente ter sua demanda diminuída pela preferência por ligações online. Além do mais, se o acesso ao sexo através da tecnologia do sexbot for um complemento à eficiência doméstica, então nós poderemos observar um aumento na qualidade de casamentos que, como resultado, acarretaria na diminuição da taxa de divórcios.”

Adshade lembra de um princípio econômico nomeado a partir do químico francês Henry Louis Le Châtelier que diz que, sempre que um impasse na tomada de decisão individual é removido, o resultado dessa decisão pode não ser pior do que o resultado que seria obtido com aquele impasse. Para a pesquisadora, a necessidade de encontrar alguém com quem se é compatível sexualmente coloca um impasse na decisão de se casar ou não. Porém, ao se remover esse impasse, então, de acordo com o princípio de Le Châtelier, casar-se não se tornaria uma decisão menos favorável, mas, na realidade, poderia promover uniões de melhor qualidade.

“O acesso à tecnologia dos sexbots não irá mudar o imperativo biológico das pessoas em quererem dividir suas vidas e ter filhos com outros seres humanos, mas ela poderá tornar possível que as pessoas escolham parceiros humanos baseados em suas características que estão além do desejo sexual — então rompendo a associação de intimidade sexual com a vida em família. Por exemplo, não é difícil de imaginar duas mulheres heterossexuais vendo valor em formar um ambiente doméstico e terem filhos juntas como um casal, mas suas necessidades por companhia sexual seriam resolvidas por meio da tecnologia dos sexbots. Também não é difícil de imaginar um homem homossexual vendo valor em formar um lar e ter filhos com uma mulher, desde que essa união possa significar uma redução de custos associada à tecnologia reprodutiva. Ao romper essa associação entre intimidade sexual e casamento, o casamento pode deixar de ser aquilo que conhecemos hoje. Mas novas formas de casamento poderão ser um acordo social melhorado no sentido de que poderia encorajar uma formação de lares mais eficientes e, como resultado, casamentos que são mais propensos a durar.”

Conforme chegamos a esse cenário, comenta Adshade, também podemos ao mesmo tempo também acabar nos livrando de barreiras que previnem pessoas casadas de terem outros relacionamentos extra-conjugais, sejam eles com robôs ou humanos. Para a pesquisadora, essa lógica da monogamia também tem muito a ver com a eficiência econômica: homens irão investir mais em seus filhos se estes não estiverem sendo cuidados por outros homens, do mesmo modo que, se os maridos fossem fiéis, então mulheres solteiras não teriam que criar filhos de homens casados e que não se comprometem com essas crianças. No entanto, mais uma vez, por conta dos contraceptivos, a questão da fidelidade matrimonial também mudou e as normas em torno da monogamia passaram a ser questionadas.

“Se o acesso à tecnologia dos sexbots encoraja a criação de casamentos sem o impasse da intimidade sexual mútua e o foco passa a estar na criação de um lar eficiente (e talvez em prover companhia não-sexual), então qualquer preocupação de que esses casamentos possam gerar crianças com pouco capital humano será infundado. Na verdade, tais casamentos poderão prover melhores ambientes para as crianças e, como resultado, nós podemos esperar que eventualmente essas uniões encontrem aprovação social. Do mesmo modo que melhorias na tecnologia de controle de natalidade surtiram tanto efeitos diretos e indiretos no comportamento sexual e nas normas matrimoniais, também a tecnologia dos sexbots irá provavelmente gerar efeitos diretos e indiretos à sexualidade fora do casamento.”

Mas apesar de todos os pontos positivos levantados por Adshade ao tratar dos sexbots, a pesquisadora ainda vê alguns problemas que podem ocorrer junto à chegada da tecnologia: “Assim como foi no caso de outros avanços tecnológicos, os sexbots serão certamente menos acessíveis a grupos com menos acesso socioeconômico — e, do mesmo modo, esses grupos provavelmente tirarão menos benefícios de qualquer mudança nas normas sociais como um resultado de introdução dessas novas tecnologias.” Fora isso, Adshade vê que, para que essas mudanças realmente ocorram, então sexbots deverão ser avançados, acessíveis e principalmente populares, sendo este último um elemento bastante difícil de se prever.

Nesse meio tempo, porém, Marina Adshade já vê algumas mudanças no casamento apesar de os sexbots ainda serem uma tecnologia cara e especializada. A pesquisadora já consegue ver que um pequeno grupo de pessoas está liderando uma maior aceitação da não-monogamia no casamento e, mais de forma mais abrangente, também acontece o abandono do conceito universal de casamento. O acesso aos sexbots, portanto, pode não transformar a sociedade por si só, mas encorajar uma maior aceitação diante dessas atitudes. Para Adshade, mesmo aqueles que acreditam no casamento tradicional poderão encontrar nos sexbots uma forma de superar os momentos mais difíceis.


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