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Redes sociais são a nossa porta de existência na internet e a melhor maneira de nos representarmos nelas são através de fotos de nós mesmos, mas quais são as consequências dessa prática?

Não é novidade mais dizer que as redes sociais, em especial o Instagram, são gatilhos para diferentes problemas de saúde mental: desde a distorção da imagem corporal até a ideia de que todos vivem uma vida perfeita (e sempre em férias), menos você. Cada vez mais pesquisadores estão também se dedicando a provar isso de maneira empírica, como é o caso do estudo divulgado no artigo “Selfie” harm: Effects on mood and body image in young women”, publicado em 2018.

Fiquei conhecendo esse artigo justamente depois de ter feito um post sobre autoimagem e a maneira como a estética da mídia e das redes sociais influenciam na percepção de nós mesmos. Neste caso, o estudo teve como foco 113 estudantes de psicologia administradas através de uma plataforma da York University em Toronto, sendo que estas tinham entre 18 a 29 anos. Dentre as principais conclusões, foi indicado que o ato de tirar selfies e postá-las em redes sociais gerou uma piora no humor e na imagem corporal das participantes, bem como a postagem de selfies retocadas também acabaram gerando efeitos danosos.

Como base para esse estudo, as pesquisadoras trouxeram em evidência várias fontes que já haviam indicado a insatisfação com o próprio corpo como um problema generalizado entre garotas e mulheres, algo que se tornou ainda mais fortalecido e catalizado pelas redes sociais (ver Brown & Tiggemann, 2016; Holland & Tiggemann, 2016; Tiggemann & Miller, 2010). Isso ocorre porque as redes sociais, afinal, dão a oportunidade de as pessoas se compararem umas às outras, sendo que muitas dessas imagens são, afinal, um reflexo de um ideal de beleza não-realista:

“As redes sociais apresentam inúmeras imagens idealizadas de mulheres magras, musculosas, bonitas, photoshoppadas, e o ‘ideal magro’ e ‘ideal atlético’ são mostrados como um tipo de corpo normal e atingível para qualquer mulher (Kim & Chock, 2015; Meier & Gray, 2014; Robinson et al., 2017). Além disso, a internet e as redes sociais promovem a magreza, comportamento de dieta e perda de peso através de imagens idealizadas da mulher ‘perfeita’ (Perloff, 2014). Mulheres que usam redes sociais frequentemente internalizam o ‘ideal magro’, gerando assim uma luta por um padrão não-realista e não-natural de beleza, assim sentindo-se envergonhadas quando elas são incapazes de atingi-lo (Kim & Chock, 2015; Meier & Gray, 2014; Tiggemann & Slater, 2013).”

Perloff (2014), por exemplo, sugere que mulheres que têm um alto padrão de magreza como referência de beleza, perfeccionismo e baixa autoestima são aquelas que mais estão propensas a fazer comparações com essas fotografias postadas nas redes sociais. Para as pesquisadoras, essa possibilidade é especialmente preocupante, já que a insatisfação com o próprio corpo entre as mulheres é um dos principais gatilhos para o desenvolvimento de distúrbios alimentares e depressão. Por conta disso, a pesquisa teve como premissa entender os efeitos reais das redes sociais sobre esse demográfico e como essas plataformas se tornaram um espaço de experimentação de “autorrepresentação”.

Levando em consideração que as redes sociais são um meio de gerar uma impressão e de se manter uma persona online, é natural que as pessoas escolham suas versões mais atraentes para gerar uma percepção positiva. Para isso, selfies são uma estratégia eficiente por representarem o próprio indivíduo, ainda que este seja captado, muitas vezes, de ângulos e iluminação que favorecem, bem como outras edições que possam corrigir defeitos que vão desde acne até o formato de uma parte do corpo, de modo que ele pareça mais magro. Desse modo, o corpo nas redes sociais se torna um corpo maleável, mas também irreal, daí a tendências de as pessoas quererem postar mais e mais fotos de si mesmos como uma forma de melhorar sua autoestima. De acordo com (Pounders et al., 2016), mulheres de 16 a 25 anos chegam a gastar até 5 horas por semana tirando selfies e compartilhando-as em redes sociais, um comportamento considerado arriscado por ter o potencial de influenciar na imagem corporal do indivíduo, bem como sua autoestima.

Parte da pesquisa foi convidar as participantes a tirarem uma selfie e postarem em suas redes sociais sem a opção de retocá-las ou de tirar várias fotos até obter um exemplo aceitável. Nesse caso, as participantes se sentiram mais ansiosas, menos confiantes e menos fisicamente atraentes depois do teste e isso foi especialmente diferente dos resultados objetivos no grupo de controle, isto é, parte da amostragem que não se submeteu a esse teste. “Esses resultados são consistentes com sugestões anteriores de que as preocupações com a aparência são aumentadas quando as mulheres interagem com o construto de seus perfis em redes sociais, manifestando então uma piora em sua imagem corporal e humor.”

No entanto, no caso da amostragem que teve possibilidade de tirar mais fotos e inclusive retocá-las antes de postar, não foi observada nenhuma grande mudança na ansiedade e na insegurança se comparada à reação das participantes que postaram suas fotos sem retoque e sem mais opções. No caso da percepção corporal, as participantes que puderam retocar seus corpos nas fotografias ainda assim se sentiram menos atraentes depois de postar a imagem online, do mesmo modo que as participantes privadas dessa funcionalidade. “Em termos de confiança, as mulheres que puderam retocar suas selfies se sentiram mais confiantes depois do que o grupo das que não retocaram, mas elas se sentiram tão confidentes quanto aquelas que não postaram selfie nenhuma. Em outras palavras, postar uma selfie retocada não melhorou a confiança das mulheres, se comparado àquelas que estavam realizando uma tarefa neutra”, no caso, lendo notícias, por exemplo.

“Para explicar essas descobertas, poderíamos dizer que a escrutinação e a modificação das imagens de si mesmas faz com que as mulheres pensem mais sobre suas falhas ou imperfeições. O retoque pode ativar sensações de auto-objetificação. Apesar de as estratégias de auto-apresentação apresentarem um senso de controle sobre a aparência física, elas não realmente parecem melhorar o humor ou a autoimagem. O presente estudo não encontrou nenhuma evidência que postar fotos retocadas em redes sociais faze com que as mulheres se sintam melhores que o usual e descobriu alguma evidência que isso as faz sentir pior do que o normal. Apesar de as mulheres poderem se sentir menos ansiosas sobre postar uma selfie se elas tiverem a chance de retocá-la e fazê-la mais atraente, o processo de tirar e editar a foto ainda chama a atenção ao fazê-las insatisfeitas sobre aspectos de sua aparência.”

Apesar de ter chegado à conclusão que, afinal, tanto as mulheres que puderam retocar a sua selfie ou as que não puderam continuaram inseguras de si mesmas, o estudo ainda aponta para a necessidade de uma pesquisa de maior prazo, uma vez que esse tipo de comportamento é algo comum e prolongado entre as usuárias de redes sociais. Movimentos como o Finstagram, por exemplo, demonstram uma tentativa de resistência e contrariedade à norma vigente, porém ainda são uma atuação isolada e alternativa, uma vez que os adeptos continuam mantendo seus perfis tradicionais para além dos Finstagrams. Do ponto de vista clínico, as pesquisadoras apontam justamente como esse comportamento mediado pela tecnologia acaba sendo mais um desdobramento a ser trabalhado por profissionais de saúde, sejam eles psicoterapeutas ou psiquiatras.

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