Desde 2015, cientistas chineses vêm fazendo testes que levaram ao suposto nascimento de duas garotas gêmeas já sem o gene CCR5, o que as torna imunes ao HIV, catapora e cólera.

No fim de outubro, o MIT Technology Review publicou o artigo Designer babies aren’t futuristic. They’re already here com uma alegoria que convidava à reflexão sobre os impactos e potencialidades de se poder editar o código genético de um feto para evitar que certos traços dos pais acabem sendo repassados para os filhos. Ao apresentar a história do personagem Matthew, que se descobre portador de um tipo de distonia, condição que faz com que os músculos do corpo se contraiam incontrolavelmente, o artigo escrito por Laura Hercher nos leva a pensar sobre como esse tipo de condição hereditária poderia ser evitada com técnicas de edição como o CRISPR.

Diante da intenção de ter filhos, Matthew e sua esposa Olivia procuram aconselhamento genético (sim, isso é uma ação de saúde já realizada por profissionais como biólogos, médicos ou mesmo farmacêuticos) para checar quais seriam as chances de seus filhos herdarem essa condição. Diante de um risco de 30%, o casal acabou encontrando a alternativa da fertilização in-vitro, sendo que os embriões seriam testados em laboratório para ter seu código genético avaliado antes mesmo da implantação. A ideia era selecionar quais embriões não possuíam a disfunção de Matthew.

O problema é que essa não era uma alternativa barata: a fertilização in-vitro custa mais de US$20 mil e cada teste nos embriões mais US$10 mil. Fora isso, seriam necessárias duas semanas de estimulação dos ovários e coleta de óvulos. Não era o cenário ideal para Olivia, que queria se tornar mãe, mas não dessa forma. E apesar de Matthew e Olivia não estarem usando uma técnica para editar os genes de um embrião, o próprio ato de selecionar o embrião com as características desejáveis (no caso, a ausência da disfunção muscular) já é, em certa medida, uma técnica para se criar designer babies, isto é, uma nova geração de pessoas aperfeiçoadas.

Neste domingo, porém, a mesma página, Technology Review, publicou a reportagem exclusiva de que cientistas chineses já estão criando bebês que possuem seu código genético alterado pela técnica CRISPR. Na realidade, esse teste de edição do código genético humano já tinha se iniciado na China em 2015, o que àquela época também tinha surtido em uma polêmica sobre as questões éticas envolvidas nesse procedimento.

No entanto, desde então, não só o tema se tornou mais popularizado como a própria ferramenta CRISPR também passou a ser pensada para outras aplicações. Se, naquele momento, os testes serviam para sustentar uma hipótese, uma possibilidade teórica de se editar embriões humanos, agora dois documentos médicos publicados por profissionais chineses estão indicando que já há um recrutamento de casais interessados em cooperar na criação de bebês geneticamente modificados. Neste caso, o foco é eliminar o gene CCR5 para que as crianças nasçam resistentes ao HIV, catapora e cólera.

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Obras de ficção científica como o filme Gattaca já questionavam no fim dos anos 90 as implicações de se criar humanos geneticamente modificados.

Assim como no caso da história contada no primeiro artigo de outubro, a edição desses embriões se daria em laboratório, antes da inseminação no útero de uma mulher. Quando questionado sobre esse teste ter sido bem sucedido e se repercutido em um nascimento, o cientista por trás desses testes, He Jiankui, não se manifestou. Mas os dados publicados demonstram que os testes foram feitos em fetos de 24 semanas até seis meses de idade, porém não há informações se essas crianças nasceram ou não.

O que a empresa de notícias Associated Press reportou mais tarde, no entanto, é que o cientista acabou por declarar que um dos casais que participaram do teste tiveram o nascimento de suas duas filhas gêmeas neste mês de novembro, apesar de esse dado não ter sido confirmado independentemente. De qualquer forma, um vídeo promocional sobre o experimento também foi publicado recentemente.

Apesar de ser um grande avanço em termos médicos e científicos, o nascimento de crianças geneticamente modificadas traz questões éticas bastante polêmicas. Enquanto algumas pessoas defendem que certas condições podem ser tratadas com medicamentos, outras acreditam que esse tipo de técnica e de prática pode acabar se repercutindo em edições que gerem um melhoramento dos organismos e, assim, gere uma nova forma de eugenia.

Em um documento publicado por He e seu time no ano passado, o cientista declarou que, neste contexto global de competitividade na aplicação de edição genética, eles desejam estar à frente. Em outras palavras, o que esses pesquisadores estão almejando é superar a invenção da fertilização in-vitro, que surtiu no prêmio Nobel de 2010, e assim criar uma nova forma de corrida espacial travada entre Estados Unidos e agora China.

Curiosamente, essa notícia também aconteceu muito próxima à data do Segundo Congresso Internacional de Edição Genética Humana. Nesse evento, pesquisadores e especialistas de todo o mundo se encontrarão em Hong Kong para discutir se devemos começar a editar nosso código genético e, se sim, como isso se daria. Esse tipo de discussão, no entanto, também serviu de combustível para os testes de He junto a uma equipe de biólogos de elite trazidos de volta dos Estados Unidos para a China, fazendo parte do Thousand Talents Plan — um plano de contratação de talentos em inovação interessados em trabalhar na China.

Ao mesmo tempo em que não se sabe quais são os efeitos colaterais de se editar os genes de uma pessoa, a outra controvérsia em torno dessa tecnologia é que essas mudanças continuarão sendo herdadas pelas próximas gerações e isso, eventualmente, pode afetar toda a cadeia genética da raça humana. “Nunca fizemos nada que fosse mudar os genes dos seres humanos, e nunca fizemos nada que terá efeitos que se prolongarão por gerações”, declarou David Baltimore, um biólogo e ex-presidente do Instituto de Tecnologia da Califórnia.

Mas para além da academia e dos grandes laboratórios, esse tema também já foi levado para debate público, por exemplo, com uma enquete feita pela Universidade Sun Yat-Sen, que descobriu uma grande quantidade de pessoas apoiando a edição genética humana, sendo que parte dos respondentes inclusive eram HIV positivo. Mais de 60% dos respondentes também apoiaram a legalização de crianças editadas, caso o objetivo seja tratar ou prevenir doenças. Mas apesar de esse estudo ter sido feito na China, resultados semelhantes também foram encontrados em uma pesquisa realizada pela Pew Research Center, nos Estados Unidos.

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Blade Runner 2049 explora ainda mais o dilema dos replicantes, humanos geneticamente editados para terem capacidades superiores e assim atuarem como trabalhadores mais eficientes.

A questão é que, ao eliminar um traço genético que torna as crianças imunes a doenças como o HIV, não estamos fazendo um tratamento, mas sim fazendo uma melhoria da biologia humana. Levando em conta que esses embriões não possuem o vírus, editá-los para se tornarem imunes seriam uma forma de criar uma vantagem na saúde, assim como as vacinas que já existem também funcionam.

O que He declarou em seu perfil na rede social WeChat, no entanto, é que suas pesquisas serão focadas em especial para o tratamento de doenças e condições médicas, mas jamais para melhorias como o aumento do QI. Diante do crescente número de chineses contaminados com o vírus do HIV, testes como esse podem surtir numa aceitação ainda maior. Por outro lado, também esse tipo de decisão pode surtir efeito na onda anti-vacinas que, como consequência, tem trazido de volta doenças outrora erradicadas ou controladas.

Para entender mais sobre as questões éticas da edição genética em seres humanos, obras de ficção científica como o filme Gattaca trazem a questão de como crianças não editadas podem ser passadas para trás em uma sociedade em que a eugenia define seu destino e posição social, em um estilo próximo às castas de Admirável Mundo Novo. Também Blade Runner, em especial a sequência Blade Runner 2049, traz uma reflexão sobre os replicantes como seres humanos geneticamente modificados para atuar como escravos e trabalhadores mais eficientes e, portanto, são tratados como menos humanos por aqueles que não passaram por edição genética. São dois lados de uma mesma moeda e duas possibilidades das consequências sociais de tal tecnologia, já sendo investigadas no âmbito da ficção.

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