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Mais que divertidos, filtros em realidade aumentada podem gerar distúrbios de imagem corporal e corroborar com comportamentos culturais que buscam na maquiagem e nos procedimentos cirúrgicos a aquisição de um ideal de beleza só possível em sua virtualidade.

Ao mesmo tempo em que vemos as redes sociais e a computação gráfica (ou mesmo a realidade aumentada) como instrumentos que nos possibilitam explorar novas formas de manifestação da beleza e das possibilidades do corpo humano transmutado pela tecnologia, tais experimentações nem sempre acabam por enveredar um caminho de emancipação, inclusão ou exploração de novas possibilidades de existências.

Na realidade, em uma camada mais distribuída, o que ocorre é que as redes sociais acabam por firmar um código de aparências e significados de beleza que acaba sendo estereotipado pela lógica do mercado de influência digital (o qual também se torna uma caricatura no caso dos influenciadores virtuais). Em outras palavras, o que os filtros do Instagram e Snapchat ou de aplicativos de edição como o Facetune ou YouCam têm gerado são novos tipos de distúrbio de imagem corporal que hoje se sustentam não apenas na pós-produção de uma imagem ou vídeo, como se tornam uma intervenção em tempo real.

Maisie Hazelwood

Na semana passada, a Veja São Paulo noticiou o caso de Maisie Hazelwood, uma universitária de 19 anos que passou a odiar seu próprio reflexo por conta do hábito de tirar selfies usando efeitos. Segundo a reportagem, Maisie tinha dificuldades até de se olhar no espelho e sair da cama por causa da baixa autoestima. Em entrevista para o Daily Mail, a estudante confessou que havia baixado os aplicativos de celular para usar os filtros e assim poder fazer selfies sem maquiagem. “Eles me deixavam mais bonita. O meu favorito era o que fazia meus cílios parecer maiores. O meu rosto ficava sem defeitos — qualquer espinha ou mancha desaparecia. Eu me apaixonei pela minha aparência no aplicativo e esqueci da realidade.”

Como consequência, Maisie deixou de usar maquiagem e ficava presa à cama por não conseguir mais se olhar no espelho. “Eu odiava o que via. Me isolei do mundo, não deixava que ninguém me visitasse porque achava que as pessoas gargalhariam por eu ser tão feia em comparação com as minhas selfies online”, ela revela. “O app era perfeito para eu fazer uma selfie rápida antes de sair de casa, porque os filtros corrigiam tudo o que eu não gostava sobre meu rosto. O fato de que eu não conseguia sair da cama por ter medo de me ver sem as edições era algo que eu não esperava que acontecesse por causa de um aplicativo.”

Para que Maisie percebesse essa sua condição, foi necessário que sua família pedisse fotos recentes, o que a fez notar que não havia nenhuma fotografia sem filtro, já que fazia um ano que ela havia adotado essa prática. Ao deletar o aplicativo e começar a fazer selfies com a câmera normal do celular, a estudante começou a se recuperar: “Eu quero alertar as pessoas para que elas não deixem a beleza natural se perder em um mundo de filtros.”

No entanto, não são todas as pessoas que acabam por ter esse despertar e conscientização de um hábito que, em última instância, distorce sua própria imagem e afeta diretamente sua autoestima e percepção do seu estar no mundo. Em alguns países e círculos específicos, como é o caso da China e da Coreia do Sul, o padrão de beleza não só é perfeccionista como só pode ser atingido artificialmente. Enquanto países como a França criam instrumentos legais para barrar a manipulação das fotografias veiculadas em anúncios de moda, vemos a reação a campanhas como a recentemente lançada pela Zara.

Fotos de Jing Wen para a Zara.

A modelo chinesa Jing Wen foi convidada a promover uma nova linha de cosméticos da marca espanhola, mas quando suas imagens foram publicadas na rede social Sina Weibo na sexta retrasada, a reação dos consumidores chineses foi criticar a presença de sardas nas fotos não retocadas da modelo. Tanto na China quanto na Coreia, o ideal de beleza tem se focado em uma pele pálida e sem nenhuma mancha, daí o incômodo com a imagem de uma modelo com sardas em uma campanha publicitária.

Conforme relatado pela CNN, alguns usuários chegaram a acusar a Zara de “enfeiar” a modelo para mostrar um retrato negativo e não representativo do que é uma mulher asiática. Outros disseram que o fato de usar uma modelo com sardas acaba por “difamar” o país do mesmo modo como, alguns meses atrás, a Dolce & Gabbana enfrentou críticas por ter feito uma campanha com uma modelo chinesa tendo dificuldade em comer comida italiana com hashi. “Depois de ver essa propaganda, decidi não comprar mais nenhum produto da Zara. Não porque acho que a modelo é feia, mas porque está discriminando a maneira como os asiáticos vêem o ideal de beleza”, declarou um usuário.

Mas apesar disso, alguns usuários também defenderam a modelo e a campanha afirmando que “cada pessoa tem um entendimento diferente do que é beleza e nós não precisamos ter a mesma noção estética, mas precisamos dar espaço para rostos diferentes.” Outros ainda afirmaram que a modelo ficou muito mais bonita do que os rostos manipulados e retocados: “Por favor, não viva com filtros. Não é bom ser real?”

Com a acensão dos ídolos da música pop coreana, também fica em evidência o hábito nacional de fazer intervenções cirúrgicas para se aproximar de um ideal de beleza que é explorado, por exemplo, por Grace Neutral em sua série para a Vice i-D. Ao visitar a Coreia e conversar com diferentes pessoas, a modelo passou a entender como o tema da cirurgia plástica é uma constante nos produtos culturais, como as novelas e filmes, e como esse tipo de procedimento é realizado ainda muito cedo. Em reportagem do site Hypeness, descobrimos que alguns pais chegam a presentear seus filhos com cirurgias plásticas antes mesmo de eles entrarem na faculdade.

Segundo o cirurgião plástico Man Koon Suh, essa atitude tem a ver com o fato de o país dar tanta importância à primeira impressão causada por uma pessoa. “Como a maioria dos coreanos têm pálpebras caídas, eles acreditam que isso lhes confere uma aparência de tristeza. A maneira encontrada para reverter o olho caído foi justamente através de cirurgias plásticas na região, que custam entre US$1.000 e US$3.000.” Outro ponto defendido é que pessoas consideradas mais bonitas também têm mais oportunidade de se posicionar não apenas no mercado de trabalho como também na sociedade como um tudo. Isto é, o corpo e principalmente do rosto são um diferencial na percepção social das pessoas e esse é um tema explorado no filme Beautiful (2008), que demonstra de forma dramática as consequências dessa obsessão nacional pela beleza.

Mas é justamente por conta desse expertise em cirurgias plásticas que diferentes mulheres e homens de outros países vão até a Coreia do Sul para realizar intervenções que, no entanto, podem ser tão drásticas que as pessoas chegam a ficar irreconhecíveis. Também com um olhar dramático e quase beirando ao horror, o filme Time do diretor sul-coreano Kim Ki Duk retrata a história de uma mulher que faz intervenções cirúrgicas para se transformar em uma outra pessoa e, assim, reconquistar seu ex-namorado. Apesar de ser um exemplo hiperbólico, será que as pessoas que se submetem a procedimentos cirúrgicos extremos também não estão tentando reconquistar a sociedade e a maneira como ela os vê?

Cha Jin-won antes e depois de deixar de usar maquiagem. Na Coreia, cabelos mais curtos que chanel não são considerados atraentes para mulheres.

Novos movimentos sul-coreanos, porém, têm buscado uma forma de desconstruir e criticar esse extremismo e esses estereótipos de beleza que se desdobram tanto na maquiagem quanto na cirurgia plástica e no uso de aplicativos de edição. Entre os ídolos do K-Pop, são aplicativos como o Snow que têm ganhado popularidade como uma forma de afinar o rosto ou deixar a pele mais clara e uniforme, por exemplo. Mas se, por um lado, esses ídolos acabam por reforçar um padrão de beleza artificial, também eles estão ajudando na desconstrução do ideal de beleza masculino associado à virilidade, uma vez que trazem em si um novo olhar sobre o que é ser homem, ainda que subjugado a certas “regras” de vaidade já bem conhecidas pelas mulheres.

Em entrevista para o The Guardian, Cha Ji-won, que apoia esse movimento contrário ao padrão de beleza sul-coreano, revela que ao deixar de usar maquiagem, foi como se tivesse nascido de novo: “Uma pessoa tem muita energia todos os dias, e eu costumava gastar a minha quase que por inteiro preocupada em ‘ser bonita’. Agora eu uso esse tempo e energia para ler e me exercitar”.

Já no Ocidente, enquanto nos preocupamos em tratar da body positivity ou body neutrality como um todo, também vemos outros movimentos de desconstrução da beleza a partir de hashtags como as associadas à Acne Fashion. Do mesmo modo, também estamos em um processo de desconstrução e de exploração dessas novas tecnologias, sejam elas digitais (aplicativos), médicas (cirurgias) ou químicas (maquiagem), mesmo porque junto delas estão enraizadas tradições e visões muito mais antigas do que a indústria da publicidade e marketing.

No caso da Coreia, por exemplo, o uso de maquiagem e a ideia da palidez como algo associado à nobreza data de pelo menos 700 anos atrás, algo também presente na cultura europeia em contraste à pele escura dos camponeses e dos escravos. No Brasil, continuamos lutando contra a desclassificação da beleza negra ao também tentar superar uma história majoritariamente tomada por um período de escravidão e exclusão dos afrodescendentes. O que nos resta, portanto, é nos conscientizar desses problemas e buscar não reproduzir esses paradigmas antigos para que então pavimentemos um futuro em que a existência e a potência das pessoas não esteja estritamente ligada ao seu corpo e à sua aparência física — mesmo porque, no Metaverso, seremos todos avatares.

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